domingo, 22 de maio de 2011

"Beautiful Creatures - Dezesseis Luas" (Margaret Stohl/Kami Garcia)



Olha só, pessoal, esta série promete ser a melhor no estilo da ficção sobrenatural, a julgar pelo que o primeiro livro, Dezesseis Luas, provoca no leitor. Cada página é um manjar saboroso que nosso olhar percorre não apenas com a obrigação de seguir adiante até alcançar a última linha, mas também e principalmente com o prazer supremo da leitura de uma narrativa que nos envolve, seduz e hipnotiza, como um ato mágico.
O vestido de Lena caía sobre o corpo, justo nos lugares certos mas sem parecer coisa do Little Miss, em um tecido prateado, tão delicado quanto uma teia de aranha prateada, tecida por aranhas prateadas.
A história é narrada na primeira pessoa por um adolescente – sim, desta vez o ponto de vista é masculino, cedendo voz à esfera feminina em apenas uma passagem da trama; mesmo assim é possível ouvir Lena, que divide o espaço principal do enredo com o narrador, Ethan, como se ela estivesse se dirigindo diretamente ao leitor, tal a sintonia desenvolvida entre estas almas unidas pelas forças que regem o destino.
Tudo se passa no condado de Gatlin, na Carolina do Sul, uma pequena comunidade que, como descreve o protagonista no prólogo, parece estar perdida no meio do nada; em sua superfície é um lugarejo parado no tempo, preso nas teias do passado, no período da Guerra Civil norte-americana ou Guerra da Secessão, quando o Norte e o Sul lutaram entre si.
Gatlin não era um lugar complicado; Gatlin era Gatlin. (...) Nada mudava nunca. Amanhã seria o primeiro dia de aula, no segundo ano do ensino médio na escola Stonewall Jackson High, e eu já sabia tudo que iria acontecer: onde eu me sentaria, com quem eu falaria, as piadas, as garotas, quem estacionaria onde.
Não havia surpresas no condado de Gatlin. Éramos nada mais nada menos do que o epicentro no meio do nada.
Seus habitantes vivem em função de uma história nada gloriosa, na qual seus ancestrais se rebelaram contra a União, unidos em uma Confederação, com o objetivo de defender sua postura escravagista, essencial para desenvolver a cultura do algodão, uma compensação por seu atraso econômico em relação ao Norte.

Naturalmente eles foram derrotados; e durante o confronto muitas vidas se perderam. Mesmo assim as mulheres ainda se unem em instituições como o FRA, Filhas da Revolução Americana, na qual cada integrante tem que ser realmente descendente de um patriota desta Revolta. Os homens, por sua vez, se preparam todo ano para a Encenação da Batalha de Honey Hill, um dos poucos episódios da Guerra Civil no qual foram vitoriosos. Para isso eles desenterram os uniformes e armas de seus ancestrais e recriam a atmosfera de uma era da qual não conseguem se libertar.
As encenações da Guerra Civil são um fenômeno bizarramente estranho, e a Encenação da Batalha de Honey Hill não era exceção. (...) Quem queria correr por aí atirando com armas antigas que eram tão instáveis que eram famosas por estourar membros das pessoas quando disparadas? (...) Quem ligava para recriar batalhas que aconteceram em uma guerra que ocorreu há quase 150 anos e na qual o sul não venceu? Quem faria isso?
Em Gatlin, e na maior parte do sul, a resposta seria: seu médico, seu advogado, seu pastor, o cara que conserta seu carro e o que entrega sua correspondência, provavelmente seu pai, todos seus tios e primos (...) e certamente o dono da loja de armas da cidade.
Neste cenário sufocante Ethan Wate sente-se profundamente deslocado; órfão de mãe, herdeiro de seu espírito rebelde e independente, abandonado pelo pai, que vive trancado no escritório, supostamente escrevendo um livro interminável, desde a morte da esposa, e criado por Amma, uma mulher misteriosa que segue a tradição familiar de se comunicar com os espíritos e guarda em sua mente um arsenal infinito de feitiços e vodus protetores, o jovem sonha em partir de Gatlin assim que terminar o colégio.
É então que ele conhece Lena, a garota que chega à cidade para subverter os acontecimentos e revelar o que se esconde nas entranhas da província; Ethan vai descobrir, pouco a pouco, que nada é o que parece ser e Gatlin não é simplesmente um recanto perdido no meio do nada.
Lena é a sobrinha de Macon Ravenwood, proprietário da fazenda mais antiga da região; embora sua família seja praticamente a mais tradicional de Gatlin, é vista com desconfiança e mal-estar por todos da cidade, pois o tio da jovem está recluso em sua propriedade há mais de quinze anos. Sua casa e suas terras são consideradas mal-assombradas e as mais terríveis e macabras histórias circulam sobre o que se passa no interior de Ravenwood.
Um rabecão. Fiquei paralisado.
Então ela se virou, e pela janela aberta pude ver uma garota olhando em minha direção. Pelo menos pensei ver. (...) O mau presságio não era apenas um rabecão. Era uma garota. (...)
Macon Melchizedek Ravenwood era o recluso da cidade. Vamos apenas dizer que eu lembrava o bastante de O Sol é para Todos para saber que o Velho Ravenwood fazia Boo Radley parecer um cara extremamente popular. Ele morava em uma casa velha em ruínas, na fazenda mais antiga e abominável de Gatlin, e acho que ninguém o via desde antes de eu nascer ou mais.
Como toda pequena comunidade, os habitantes de Gatlin hostilizam Lena desde o início, com exceção de Ethan e de seu melhor amigo, Link. Ao conhecê-la, o protagonista percebe imediatamente que ela é a garota que invade seus sonhos todas as noites, desde a morte da mãe. Na verdade são pesadelos nos quais constantemente ele tenta salvá-la, mas Lena escapa de suas mãos e cai em um terrível abismo.
A partir deste momento sentimentos como medo, intolerância, ódio e preconceito despertam em Gatlin, direcionados a Lena e a quem permanecer ao seu lado. Ela traz em seus olhos verdes temíveis tempestades, não só no sentido metafórico, mas também literalmente. Estranhos acontecimentos se desencadeiam naquela que parecia ser uma pacata cidade, e Ethan vai finalmente descobrir a outra Gatlin que se oculta sob a que sempre conheceu.
Mas ninguém acreditou que a explicação podia ser uma janela velha e o vento. Acreditavam mais na sobrinha de um velho e uma tempestade com relâmpagos. A tempestade de olhos verdes que tinha acabado de se mudar para a cidade. O furacão Lena. Uma coisa era certa: o tempo tinha mudado mesmo. Gatlin nunca tinha visto uma tempestade assim. (...)
Mas alguém tinha que fazer alguma coisa. Uma escola inteira não podia derrubar uma pessoa assim. Uma cidade inteira não podia derrubar uma família. Só que, na verdade podiam, porque sempre tinham feito isso.

De suas descobertas vai depender seu futuro ao lado de Lena, e o da própria jovem, que luta contra o relógio, pois uma terrível maldição paira sobre a noite de seu aniversário de 16 anos. Para salvar seu amor, Ethan tem não só que vencer o tempo presente, mas também o passado, enraizado no período da Guerra Civil, além das proibições de suas famílias.
Este é um livro sobre a força do amor contra as fogueiras da intolerância, as sombras e luzes presentes em cada um, o poder das nossas escolhas, a oportunidade de conhecer e aceitar o outro e a diferença, ao invés de reencenar constantemente a velha história das Inquisições.
Um mês antes, eu não teria acreditado, mas agora eu sabia bem. Aqui era Gatlin. Não a Gatlin que eu achava que conhecia, mas alguma outra Gatlin que aparentemente tinha ficado escondida bem à minha vista o tempo todo. (...)
Parecia não haver nada inacreditável demais para esta Gatlin. É engraçado como a gente pode morar em um lugar a vida toda e mesmo assim não vê-lo de verdade.
Sua narrativa poética nos envolve – aliás, a literatura, especialmente a poesia, entretece com intensidade a trama eletrizante que nos prende do início ao fim da leitura; e o mais incrível é que, após percorrer 485 páginas, nosso maior desejo, no final, é que a história não termine; aliás, já poderíamos embarcar sem hesitar em sua sequência.
Esta obra é fruto da parceria de duas novas autoras que realmente prometem em termos de talento e de sintonia. Kami Garcia é a garota sulista, traz em sua alma as mais variadas crendices, adora assar pães e tortas. Como diversos personagens da narrativa, ela também é descendente de patriotas da Guerra e alguns de seus familiares integram As Filhas da Revolução Americana. Ela é mestre em Educação.
Margaret Stohl nos lembra Lena, pois enfrentou igualmente inúmeros problemas desde os seus 15 anos. Ela trabalhou muito tempo escrevendo e elaborando videogames populares. Apaixonada por literatura americana, a escritora é mestre em inglês na Universidade de Stanford e estudou escrita criativa. Este é o primeiro romance de ambas, que moram na Califórnia com seus familiares.


Editora: Galera Record

Autor: Kami Garcia e Margaret Stohl

ISBN: 9788501086914

Origem: Nacional

Ano: 2010

Edição: 1

Número de páginas: 490

Acabamento: Brochura

Formato: Médio

Volumes: 1

terça-feira, 17 de maio de 2011

"Os Imortais - Chama Negra" (Alyson Noël)

Olha só, pessoal. Embora eu já tenha lido os volumes anteriores da série Os Imortais, vou postar primeiro o livro 4, Chama Negra, porque este é, sem dúvida, o melhor até agora, e estou louca para compartilhar com vocês minhas impressões. Mas prometo postar os outros depois, ok?



Ao que parece, a série Os Imortais fica melhor a cada livro, e certamente Chama Negra é o melhor de todos até agora. Nesta sequência, Ever sofre as consequências das atitudes tomadas no final de Terra de Sombras, quando apelou para a magia com propósitos completamente egoístas.
Como a autora deixa claro neste volume, a magia tem como objetivo manipular energia, não pessoas. Quando a protagonista tenta amarrar Roman a si mesma, com o objetivo de controlar sua mente e, assim, induzi-lo a lhe devolver o antídoto que permitiria a consumação física de seu amor por Damen, o feitiço vira contra a feiticeira e ela é que fica sob o domínio do cruel imortal.
Mas Ava, como sempre, resolve ignorar meu comportamento e prossegue como se eu nada tivesse dito:
- aprendi que a magia, como a materialização, é apenas a simples manipulação da energia. Mas, enquanto a materialização normalmente é reservada à manipulação da matéria, a magia, pelo menos em mãos erradas... (...) Bem, se não for praticada corretamente, com a intenção adequada, tende a manipular pessoas, e é aí que começam os problemas.
Ever se torna totalmente obcecada por seu adversário; seus pensamentos, sonhos, desejos e ambições se voltam exclusivamente para os olhos azuis e a pele bronzeada de Roman; no momento em que olha para ele, a chama negra acesa em seu íntimo brilha com uma intensidade à qual ela não pode resistir.
Aos poucos a jovem imortal é dominada pelo que ela acredita ser um monstro alheio a ela, mas na verdade é seu próprio lado sombrio, desperto por seu envolvimento com magia negra. Ever não tem consciência de que esta face obscura esteve sempre presente em seu íntimo, pronta para emergir ao primeiro impulso favorável.

Porque Roman está certo. Total e completamente certo. O único motivo pelo qual perdi, pelo qual não consegui o que queria, é o fato de o monstro ser eu, não há diferença entre nós. Ele é responsável por toda a ação, por todas as decisões, enquanto eu apenas acompanho, sem saber como pisar no freio ou dar o fora.
(...) A fera está dentro de você, Ever, porque você a colocou aí dentro. Mas, acredite, pode se livrar dela com a mesma facilidade.


Ever percorrerá uma árdua e dolorosa jornada de dor, desespero, ilusão, erros, frustrações, equívocos, escolhas erradas, até compreender o processo de amadurecimento que atravessa por entre espinhos e abismos, o qual lhe permitirá alcançar o conhecimento e o domínio de si mesma. Enquanto isso, ela revê antigos conceitos e se liberta de ressentimentos e preconceitos.
Esta travessia não prescinde da passagem pelas sombras, um território definido pelo psicólogo Carl Gustav Jung como o eu sombrio, que reside dentro de cada um de nós, inconsciente e reprimido, rejeitado pela nossa consciência. Esta é a chama negra com a qual Ever não tem a mínima intenção de se identificar, pois é sempre mais fácil culpar forças externas pela ação de nossas próprias disposições internas.

- Um lado sombrio? - Olho para ela, lembrando-me de ter ouvido algo similar há algumas horas. - Você quer dizer, como... um eu-sombra?
- Agora você está citando Jung? - Ela ri.
Franzo o cenho, sem ter ideia de quem é.
- Dr. Carl Jung. - Ela continua rindo. - Ele escreveu tudo sobre o eu-sombra, basicamente dizendo que é nossa parte inconsciente e reprimida, as partes que nos esforçamos para negar.
O leitor será cúmplice de Ever nesta viagem interior, irá se irritar com ela, julgá-la, para depois se identificar plenamente com a jovem imortal ao entender que a vida é complexa, e o aprendizado transformador nasce justamente dos erros, das decepções, das quedas ao longo do caminho.
Nestes momentos difíceis a protagonista recorrerá a Jude, pois não tem coragem de revelar a Damen que, apesar de suas orientações, ela sucumbiu à tentação de apelar à magia no combate ao seu maior inimigo. Ao mesmo tempo em que luta para resistir à atração hipnotizante que a domina cada vez mais, é obrigada a vencer o impulso de eliminar do caminho sua rival, justamente Haven, a melhor amiga que ela mesma transformou em imortal, a nova eleita de Roman.
A autora vai ainda mais além ao desvendar as almas de Roman e Haven, a nova imortal que se deixa seduzir pelos poderes que a convertem, finalmente, de patinha feia e patética em mulher poderosa e sedutora. Alyson se vale destes personagens para discutir sutilmente a questão do bullying, um comportamento que pode ter início no próprio ambiente familiar.

A fera nasceu há seiscentos anos, quando o pai o espancou, quando Damen o negligenciou, quando Drina foi gentil com ele. Certamente ele poderia ter vivido de outra forma, feito escolhas melhores, se pelo menos alguém tivesse lhe mostrado o caminho. Mas ninguém pode dar o que não tem.
De um enredo simples, sem maiores complicações, Noël extrai temáticas profundas e significativas, como a constituição energética do pensamento, o lado sombrio presente em cada ser, o poder de atração de mentes afins, a sintonia entre os semelhantes, a morte, as complexas teias de emoções que configuram a identidade de cada um, o processo de evolução espiritual do ser humano. Além disso, a trama eletrizante levará o leitor a roer as unhas até a última linha do livro.

Quando você foca no que teme, atrai mais daquilo que teme. Quando foca no que não quer, atrai mais daquilo que não quer. Quando foca em tentar controlar os outros, acaba sendo controlada. Sua concentração em algo traz mais disso e mais coisas como isso para sua vida. Impor sua vontade aos outros, para persuadi-los a fazer algo que normalmente não fariam... bem, isso não apenas não funciona, como também acaba voltando diretamente para você.


Alyson Noël é autora dos volumes Para Sempre e Lua Azul, os quais compõem a série Os Imortais; além disso, a escritora já tem sete romances publicados. O próximo livro da saga, Estrela da Noite, promete questões existenciais ainda mais intensas; e com certeza uma Ever mais amadurecida e segura.

  • Editora: Intrínseca

  • Autor: Alyson Noel

  • ISBN: 9788580570120

  • Origem: Nacional

  • Ano: 2011

  • Edição: 1

  • Número de páginas: 248

  • Acabamento: Brochura

  • Formato: Médio






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    sexta-feira, 13 de maio de 2011

    Lançamento: "A Segunda Declaração" (Wang Xiaoping)

    Oi Pessoal
    Aí vai mais um superlançamento da Editora Cultrix. Desta vez é um clássico que contempla não só a filosofia, mas a espiritualidade, a cultura, a sociologia, e outros campos do conhecimento humano. Muito bacana, mesmo! Espero poder postar aqui em breve a resenha deste livro que parece estar tão afinado com o mundo moderno.



    Na obra A Segunda Declaração – O Próximo Passo da Evolução e o Futuro da Humanidade, que será lançada no Brasil pela Editora Cultrix no mês de maio, a chinesa Wang Xiaoping, considerada uma das pensadoras orientais mais geniais da atualidade aos 25 anos de idade, propõe a globalização de um único padrão cultural no qual as atitudes praticadas hoje são determinadas pelo futuro.
    A jovem escritora acredita que o Homem tem não somente um DNA orgânico, mas também um cultural, o que implica em afirmar que a modificação do comportamento humano reside em uma mudança ideológica seguida por uma transformação no âmbito cultural. Ou seja, só é possível a eclosão de um novo mundo se houver, antes, o surgimento de outra Humanidade, o que só ocorrerá quando uma nova cultura for criada.
    Para chegar a estas conclusões a autora bebe na fonte do saber de pensadores como Platão, Sócrates, Confúcio, Darwin, entre outros, e a partir da leitura destes clássicos ela chega a percepções e sensações pessoais sobre a existência e a vida social em nosso mundo. Assim ela edifica um paradigma específico para o século XXI.
    As pesquisas de Xiaoping percorrem as mais diversas esferas do pensamento humano, tais como tecnologia moderna, medicina, antropologia, estética, literatura, economia, política e ciência, tanto do Oriente quanto do Ocidente. Além disso, ela reserva um vasto espaço para debater questões como as células tronco e terapia genética, as quais desembocam inevitavelmente, conforme a autora, na potencialidade da vida eterna.
    A escritora elege a cultura Dacheng como aquela que deve ser disseminada em todo o Planeta; a discussão sobre este ponto se desenvolve ao longo do livro de forma específica, por meio de tópicos como o acesso cada vez mais viável às informações, embora não necessariamente ao conhecimento; a conquista tecnológica não acompanhada por metas coletivas nítidas; o saber não praticado por carência de ideais; o confronto fraterno e a união entre adversários.
    Assim que o leitor abre este livro, já é informado sobre os alicerces fundamentais que sustentarão sua tese: Cultura centrada no ser humano, Cultura amante da vida, Cultura Ecológica, Cultura Pacífica e cooperativa, Cultura do bem comum e Cultura de Grande Sucesso. 
    Xiaoping tem a pretensão de transcender, em sua obra, as pesquisas essenciais dos mais significativos futurólogos do mundo ocidental – Alvin Toffler em A Terceira Onda, e John Nasibitt em Megatendência. Ela estabelece uma interação dialética com os dois, superando o corpo teórico de ambos.
    No final do livro a escritora assina a carta aberta à Organização das Nações Unidas. Embora ela exponha alguns dos pontos vulneráveis desta entidade, como a dependência econômica que a vincula compulsoriamente às nações mais ricas, e sua destinação ocasional para simples debates, não deixa, porém, de afirmar que somente esta instituição pode concretizar seus ideais e propostas.
    Sucesso de público e crítica no Oriente, Wang Xiaoping é dona de uma invejável memória fotográfica. Com apenas 15 anos ela abandonou a escola para se tornar autodidata. A escritora já elaborou quatro livros, todos posicionados entre os mais vendidos e elogiados por críticos e leitores.

    Autora: Wang Xiaoping
    Assunto: Filosofia
    400 páginas
    Preço: R$ 62
    Capa: brochura
    Formato: 116,0 x 1,2 x 23,0 cm
    Editora Cultrix, 2011

    quarta-feira, 11 de maio de 2011

    Selos

    Olha só, pessoal! O Prosa está recebendo seus primeiros selinhos. Que felicidade, não é?

    O primeiro é da Ivete, do blog http://aprendacomanet.blogspot.com/, do dia 23 de fevereiro. Demorei para aprender a postar os selos, não é, rs rs rs! Um selo de aprovação que postarei em breve.

    Seguem os demais selos, que recebi da Elisandra, do blog A Magia Real http://lorielisandra.blogspot.com/search/label/Selos:


     





    Reproduzo aqui as regras que acompanham estes selos:

    1- Você deve fazer um post com os selinhos em seu blog;
    2- Linkar o Blog que te presenteou;
    3- Escolher entre 5 à 10 blogs para homenagear;
    4- Avisar os seus indicados 

    Vou homenagear os seguintes blogs:

    5 - Abstraia-se
    6 - Babi Lorentz 
    7 - http://viciadospelaleitura.blogspot.com/
    


    quarta-feira, 27 de abril de 2011

    Resenha - "A Fábrica de Sonhos da Pixar" (Robert Velarde)



    Se alguém procura um portal mágico por onde seja possível compreender mais a fundo as mensagens transmitidas pelos desenhos encantados da Pixar, a chave está neste livro de Robert Velarde. Em suas páginas é possível encontrar não interpretações fechadas e dogmáticas, mas esforços bem-sucedidos de compreensão das animações que, a cada ano, cativam crianças e adultos com suas imagens e histórias sedutoras.
    Nesta obra o autor extrai conteúdos preciosos das produções da Pixar Animation Studios, e os analisa de uma perspectiva cristã, com apoio na Bíblia e também na Filosofia. Ele também deixa margem para a interpretação pessoal de cada leitor ao apresentar a visão do estúdio e os resumos de cada enredo.
    Embora possamos estar assistindo a brinquedos ou carros que ganham vida, ou monstros, ou até mesmo ratos, os personagens criados pela Pixar possuem características de realidade com as quais podemos nos identificar. Além disso, em nosso mundo obscuro e muitas vezes negativo, os filmes da Pixar oferecem esperança, imaginação, beleza e um grau de pureza e inocência que chegam a ser considerados contraculturais em nossa época.
    A Pixar se constituiu como empresa autônoma em 1986, sendo posteriormente adquirida pela Disney em uma transação financeira que envolveu 7,4 bilhões de dólares. Ela vem colecionando sucessos de público a cada criação produzida por uma tecnologia virtual cada vez mais sofisticada.
    Robert deixa claro, na Introdução, que não tem a intenção de converter as animações em parábolas cristãs, nem de induzir o leitor a crer que a Pixar tem o objetivo consciente de transmitir uma lição evangélica subjacente aos roteiros de seus desenhos. Ele apenas busca, em cada uma delas, a presença de virtudes como identidade, justiça, amizade, humor, família, coragem, entre outras, que compõem os capítulos desta obra.
    Nos dois primeiros ele expõe um ponto de vista mais amplo das ideias que orientam este livro: virtude, sabedoria, esperança e imaginação. Nos demais o escritor explora os temas-chave da obra a partir da interpretação de um filme específico, embora outras animações sejam também debatidas no que se refere à temática enfocada.
    A imaginação é parte da natureza humana e a chama criativa está em nossa constituição. (...) A Pixar claramente valoriza a criatividade e a imaginação. Juntamente com a ênfase colocada em contar uma boa história, os filmes da Pixar se desenvolvem a partir de personagens e cenários criativos, frutos da imaginação. As animações não ignoram as únicas e variadas expressões da criatividade artística nos seres humanos. Ratatouille, um filme sobre um rato que quer ser um chef de cuisine, é bastante claro no que diz respeito a sua admiração pela imaginação humana.
    O autor acredita que os filmes da Pixar não só divertem o público, mas vão “Ao infinito... e além!”, como sempre nos adverte o personagem de Toy Story, o patrulheiro espacial Buzz Lightyear. Esta frase convida o espectador a criar uma perfeita identidade com as realidades imaginárias concebidas pelos produtores deste estúdio, os quais se valem, principalmente, da criatividade e da imaginação.
    Os capítulos do livro têm basicamente a mesma estrutura; ao discutir, por exemplo, a questão da identidade, Robert elege o filme que irá guiar este debate – neste caso, Toy Story –, oferece dados básicos sobre sua produção, introduz o conceito que será analisado, revela sua perspectiva bíblica, o ponto de vista da Pixar e então se aprofunda na interpretação da animação principal, deixando igualmente espaço para a apresentação de um ou mais desenhos que se relacionem ao mesmo tema.
    Para captar as maravilhas naturais a partir da perspectiva das formigas, a equipe da Pixar criou o que eles chamaram de bug-cam (câmera-inseto, em tradução livre). O dispositivo em miniatura tinha uma câmera acoplada que filmaria do ponto de vista de uma formiga, ou seja, como seria para formigas rastejar pelo chão e olhar para flores, folhas, árvores e outros objetos.
    No final de cada parte há questões para discussão que podem ser essenciais não só para o próprio leitor testar seu entendimento do texto e das produções abordadas, mas principalmente para debates coletivos, os quais podem ser inclusive encenados no ambiente escolar, pois alguns dos tópicos propostos são mais amplos, excluindo o viés religioso, que no contexto educacional pode, às vezes, ganhar uma conotação mais polêmica. Além disso, no Anexo C há um Guia para discussão sobre os filmes, o qual pode enriquecer ainda mais a troca de ideias.
    Outros anexos completam o livro. No primeiro há um breve resumo das dez animações enfocadas nesta obra: Toy Story 1 e 2; Vida de Inseto; Monstros S. A; Procurando Nemo; Os Incríveis; Carros; Ratatouille;Wall-E e Up – Altas Aventuras. Toy Story 3 não chegou a ser incluída entre as produções da Pixar, talvez por ser muito recente. No segundo o leitor encontra uma lista dos dez curtas que acompanharam, no cinema ou em DVD, os longas criados pelo estúdio.
    O exercício que Velarde nos propõe em A Fábrica de Sonhos da Pixar é rico e estimulante, principalmente quando o mundo moderno atravessa uma profunda crise de valores e um surto de ceticismo e materialismo sem precedentes. Sua análise nos leva a admirar ainda mais as produções deste estúdio cinematográfico, a correr para assistir os desenhos que perdemos e a rever os outros com um novo olhar.
    Entre outras questões, o autor nos questiona sobre a importância da identidade, de sabermos quem somos, qual o propósito de nossa existência, a partir da crise vivenciada pelo personagem Buzz Lightyear, o qual não tem, a princípio, consciência de ser apenas “um brinquedo de criança”.
    Quando cai no chão, Buzz quebra um braço e fica frustrado, impotente e confuso. “Eu sou apenas um brinquedo, um brinquedo estúpido e insignificante”, diz. (...) Woody esqueceu que ensinara para Buzz que “a vida só vale a pena quando a gente é amado por uma criança”. Nesse caso, Woody sabe que é um brinquedo, de modo que esse aspecto de sua identidade não é misterioso. Entretanto, ele está lutando contra outro aspecto de sua identidade, ou seja, o que é que ele deve fazer como um brinquedo? De modo similar, cada um de nós sabe que é humano, mas o que é que devemos fazer conosco como seres humanos?
    Outro tópico fundamental é o da família, debatido a partir do filme Procurando Nemo. O amor paterno é o principal viés deste debate; através do sentimento possessivo de Marlin pelo filho Nemo, construído essencialmente por meio do medo da perda, o autor desenvolve uma bela discussão sobre a paternidade, o poder da fé, a importância da jornada existencial para o aprendizado e a evolução espiritual.
    Cada capítulo é uma profunda lição de vida, um mergulho na alma humana. Este é, com certeza, um livro imperdível para pais, filhos, alunos, professores, humanos em geral. Ele nos leva a refletir sobre a qualidade de vida no mundo enlouquecido em que vivemos; muitas vezes estamos tão envolvidos em sua velocidade frenética que mal temos tempo para pensar em nossa própria caminhada.
    À beira do pânico, Marlin diz: “Eu tenho que sair daqui! Eu tenho que achar meu filho! Eu tenho que contar para ele quantos anos as tartarugas vivem!” O que é tocante nessa cena é o incrível poder do amor paterno mostrado por Marlin. Tudo o que ele quer é continuar a busca por seu filho. (...) Um jogo de palavras ressalta o ponto. “Ela [a baleia] disse que a gente precisa soltar logo”, diz Dory. “Vai dar tudo certo”. (...) O jogo de palavras é uma metáfora para a paternidade. Às vezes os pais têm de soltar e confiar que seus filhos estarão bem. Obviamente, não sabemos ao certo se algo de ruim pode realmente acontecer, mas não podemos carregar esse peso para sempre.
    Robert Velarde é integrante da Sociedade Evangélica Teológica, da Sociedade Filosófica Evangélica, da Sociedade dos Filósofos Cristãos e da Sociedade Internacional de Cristãos Apologéticos. Ele mora com a esposa, quatro filhos e inúmeros objetos da Pixar em Colorado, nos Estados Unidos.

  • Editora: Universo dos Livros

  • Autor: ROBERT VELARDE

  • ISBN: 9788579302145

  • Origem: Nacional

  • Ano: 2011

  • Edição: 1

  • Número de páginas: 207
  • sábado, 23 de abril de 2011

    Resenha - "Abascanto" (Diogo de Souza)

    O autor afirma que escreveu este livro apenas para entreter o leitor e a si mesmo, mas acredito que ele foi bem além desse propósito inicial. Sua obra é uma parábola moderna sobre os descaminhos a que o ódio e o desejo extremo de vingança podem conduzir o ser humano, e uma apologia da tolerância e da liberdade de escolha.
    Ele atinge seu objetivo ao mesclar pitadas de romance, muita ação, suspense, momentos eletrizantes, seres misteriosos e revelações que são dosadas gradualmente, muitas delas imprevisíveis, até mesmo para os leitores mais perceptivos. No prólogo já é possível perceber os rumos que determinarão a trama; aí já estão presentes os grigori, criaturas de outra dimensão, e os caídos, rebeldes que deixam a Eternidade para permanecer na Terra, com os mais diferentes propósitos.
    - Você conhece as regras, Neberiah. Elas existem por um motivo. Não importa quantas pessoas você salve. Você está acabando justamente com o que quer salvar.
    Neberiah gritou, quase desesperado:
    - Mas eles vão se destruir!
    Kaliel respondeu, plácida:
    - É o direito deles.
    Estes seres são como os anjos bíblicos, etéreos, diáfanos, pura energia. Os grigori seguem as regras cósmicas, as quais não permitem que o Homem tenha seu livre-arbítrio violado, mesmo que suas escolhas conduzam a Humanidade a sua própria destruição. Os caídos pensam de outra forma: alguns deles, como Sariel e Belial, que estão na Terra há sete mil anos, acreditam que o ser humano deve ser salvo de si mesmo, e para alcançar esse fim todos os meios são válidos.
    No início da história três grigori se materializam em uma rua escura e deserta; é muito interessante acompanhar as distintas reações de Kaliel, Daqshael e Oriniel aos seus corpos e ao ambiente terreno. Logo depois eles já estão em pleno combate de espadas com seus oponentes, dois caídos, Neberiah e Azra, os quais são derrotados, embora Oriniel também seja abatido neste conflito.
    Da luz, três corpos começaram a surgir. (...) Formados a partir do nada, criados naquele mesmo instante, três seres com a forma humana apareceram no meio da rua. (...) Não tinham nomes, uma vez que acabavam de surgir, mas eram indivíduos: de onde vinham, tinham identidades próprias. A cada identidade, a cada uma daquelas personalidades, correspondia uma vibração, e a cada vibração, um som. (...) ainda ligados a um mundo onde o tempo e o espaço quase não tinham significado.

    Estas lutas se multiplicarão ao longo do livro; na verdade, apesar das vivas descrições destes embates, eles se tornam um pouco repetitivos no final do livro, talvez mesmo por conta da riqueza de detalhes, pois cada golpe dos adversários é descrito minuciosamente ao longo dos confrontos.

    Vinte e três anos depois, Daqshael e Kaliel ainda estão na Terra, e aos poucos o leitor descobrirá o vínculo que os une aos protagonistas, Érico e Aline, Nephilins, filhos de um anjo e uma mortal, e irmãos gêmeos separados por inúmeras tramas do destino, orquestradas pela liberdade de escolha dos envolvidos nesta história.
    Quando finalmente os irmãos se encontram, trágicos eventos os afastam novamente. Aline está casada com Sariel, o caído que deseja salvar a Humanidade por meio de sua destruição; Érico cruza o caminho deste ser exatamente quando ele mata o grigori que tenta impedi-lo de dar sequência a seus planos, e passa a ser perseguido pelo cunhado, o qual desconhece a ligação da esposa com a testemunha de suas ações.
    Só naquele instante... Só ali ela percebeu o imenso vácuo de identidade que se preenchia. Vinte e três anos ela vivera sem saber de onde vinha, de quem descendia, o que tinha herdado. Vinte e três anos sob a sombra de pais que não a amaram o bastante. Vinte e três anos debaixo de uma história subliminar que nunca seria contada. Vinte e três anos nas trevas, e ela nunca havia percebido.
    Para complicar ainda mais este inusitado contexto, Érico descobre que seu pai também é um grigori, e um passado desconhecido aflora diante de seus olhos, provocando em seu íntimo uma crise de identidade sem precedentes. O protagonista descobre também que nasceu com um ‘abascanto’ natural, ou seja, uma proteção contra os poderes que irradiam dos seres de outra dimensão; é por esta razão que somente ele pode testemunhar a morte do grigori.
    Novos e trágicos eventos opõem radicalmente Érico e Sariel; o jovem se deixa dominar pelo ódio cego e por um avassalador desejo de vingança, sentimentos que cristalizam seu coração e se transformam em fantasmas a pairarem incessantemente sobre sua mente entorpecida pela ideia fixa de destruir o caído. Ele fica surdo a todos os apelos que o estimulam a perdoar para poder triunfar sobre os planos ambiciosos de seu adversário, e suas emoções conturbadas o conduzem a um caminho sem volta.
    A tia pousou a mão no ombro dele. O toque algemou seu olhar ao dela.
    - Érico. Eu acho que você deveria lidar com isso de outra forma, meu anjo. Encontrar em você a força para perdoar Sariel. Isso o colocaria muito acima dele. Isso, sim, iria libertá-lo. A vingança, Érico, só vai abrir outro buraco no seu espírito. Ela não preenche nada. Ela é só mais uma ilusão. (...) Eu vou te ajudar, Érico, porque, se você não for mais forte do que essa situação, se você cair no abismo da vingança, meu anjo, eu eu vou ter que estar do teu lado pra te dar a mão.
    No final, o leitor com certeza sentirá falta dos personagens bem constituídos e do universo fascinante de Diogo; confesso que algumas passagens me surpreenderam demais, e chegaram até a me deixar abalada. Érico não se assemelha jamais aos heróis tradicionais; seus conflitos interiores, suas escolhas, medos, ações e sentimentos espelham os mesmos que nos movem em nossas jornadas existenciais. Aline também não é a garota frágil que aparenta ser; sua força interior emerge quando menos esperamos.
    Este é o segundo livro de Diogo de Souza, já conhecido por Fuga de Rigel, um enredo inventivo que envolve seres paranormais e uma sociedade secreta. Autor independente, ele é uma surpresa no gênero fantástico da literatura nacional contemporânea. Sua inspiração para a concepção de Abascanto nasceu em 2003, mas somente em 2008 ele decidiu dar início a essa trajetória que concebe como um conto de fadas moderno.



    terça-feira, 12 de abril de 2011

    Resenha - "O Evangelho de Coco Chanel" (Karen Karbo)


    O Evangelho de Coco Chanel é uma obra divertida, leve, bem-humorada e saborosa. A autora faz um resgate da trajetória e da filosofia existencial de Gabrielle Chanel, a estilista que revolucionou a história da moda, e a entretece com sua própria visão de mundo.
    Coco Chanel é fruto de uma infância miserável, de perdas precoces, como a da mãe - vítima dos inúmeros partos, da fome e de uma vida sem perspectivas -, e do abandono paterno. A criadora do pretinho básico nasceu em 1883, num asilo para desabrigados em Saumur; este é o primeiro sinal das dificuldades iniciais da sua vida, as quais determinarão, sem dúvida, suas escolhas futuras e a personalidade determinada, dura e, às vezes, cruel.
    Mesmo entre as órfãs, Gabrielle e suas irmãs eram párias. A maioria das meninas de Aubazine tinha uma família grande que podia pagar alguma coisa às freiras. As irmãs Chanel estavam entre as indigentes que não tinham família, ou cuja família era pobre demais para contribuir com alguma coisa, aquelas que comiam mingau aguado em mesa separada e dormiam em quartos sem aquecimento. Coco e suas irmãs eram a escória das meninas pobres.
    Esta não é exatamente uma biografia de Chanel, mas uma exposição de facetas da estilista, enfocadas em doze capítulos autônomos, dos quais a autora extrai lições de vida – não se leia aqui autoajuda, pois não é exatamente essa a intenção de Karen – muitas vezes aplicadas, antes de tudo, a sua própria experiência cotidiana.
    Algumas dessas pérolas são, com certeza, deliciosas, como a ideia de qualquer mulher pode ser duquesa, mas só há uma Chanel, com a qual a escritora justifica a recusa da estilista em se tornar simplesmente esposa. Sim, porque naquela época era impossível para alguém do gênero feminino conciliar o casamento e uma carreira profissional.
    O primeiro tópico sobre Chanel discorre sobre o estilo; aqui Karen tenta definir o que é ser Chanel; a inventora da moda moderna libertou a mulher dos espartilhos, das armações de cabelos exigidas pelos chapéus da época, enfim, de tudo que a impedia de se sentir livre no seu dia-a-dia. Ela aliou elegância, conforto e simplicidade, adaptando figurinos masculinos ao corpo feminino.
    O segundo tema se refere a um traço de caráter fundamental de Chanel, a autoinvenção. A estilista tinha uma inclinação nata à promoção pessoal; ela se envolvia em uma aura de mistério e era simplesmente impossível saber qual a verdade sobre seu passado; aliás, a estilista eliminou esse estágio de sua existência, reelaborou a história de sua infância, matou a Gabrielle real e criou uma nova Coco.
    O primeiro ato consciente de rebelião de Chanel foi mentir. Ela mentia ou embelezava bastante as coisas na sua infância, rearranjando acontecimentos, inventando fatos e personagens, fazendo desaparecer os irmãos. Não tinha nenhum respeito por nada que não fosse criação dela e isso incluía a sua própria história. Tornou-se perita em espalhar informações erradas sobre a sua origem e sua família, e durante muito tempo ela conseguiu enganar o mundo inteiro.
    Essa atitude foi vantajosa enquanto ela podia concentrar suas energias no tempo presente e nas oportunidades que pairavam a sua volta, construindo sua carreira a partir desta base temporal; mas foi negativa em sua velhice, quando o futuro já não existia e o presente tornava-se cada vez mais reduzido. Neste momento o passado teria sido um conforto para ela, se não tivesse sido sumariamente mutilado pela jovem Chanel.
    Mas o problema é que à medida que se vai envelhecendo o passado começa a se acumular como a roupa no cesto de roupa suja de uma república de estudantes. O futuro encolhe, o passado aumenta e recusar-se a ter uma relação com ele é cortar nacos cada vez maiores de quem nós éramos e do que significou a vida.
    Sua coragem e determinação estão presentes no quarto capítulo; estas virtudes nascem de alguém que conheceu logo cedo a dor e o sofrimento e, portanto, não tem nada a perder. Ela simplesmente se jogava nos empreendimentos que idealizava e se aproveitava de todos os recursos disponíveis no aqui e agora, com os quais ela teceu seu destino. É assim que Chanel conheceu o sucesso, com a máxima ousadia, o destemor diante de qualquer desafio.
    Aliás, ela desconheceu os obstáculos, e passou por cima deles como um trator irritado, implacável, cínico e destemperado, fossem estes tropeços do caminho objetos, eventos ou pessoas. Desta forma, ela não se importou de colecionar rivais, e soube exatamente como ignorá-los, destituindo-os de qualquer importância.

    Chanel nunca perdeu tempo com nada, dedicando seu precioso tesouro temporal ao trabalho e ao amor, com destaque para a produção incessante de suas coleções. Ela ia sempre direto ao ponto, não se dedicando jamais a fazer algo somente porque as outras pessoas o fazem. Coco sabia muito bem como ocupar cada momento da sua vida.
    Talvez felizmente para Chanel a infância terrível, desesperada, tenha servido apenas para nutrir a sua inclinação para saltar antes de olhar, imaginando depois, durante a queda, que uso ela poderia dar às nuvens. (...) Se ela tinha uma inclinação para viver na sua própria época, era porque não havia bons tempos para lembrar. Sua ‘madeleine’ proustiana era uma detestável tigela de mingau servida na mesa de um orfanato sem aquecimento. (...) o tempo atual era sempre um tempo melhor de viver do que o passado. Essa atitude também serviu para fazê-la se sentir completamente moderna.
    Karen Karbo é fã inveterada de Coco, mas não se pode acusá-la de ser totalmente parcial. Há escolhas de Chanel que nem mesmo ela pode justificar, por mais difícil que seja para a escritora admitir o lado sombrio da criadora do pretinho básico, principalmente quando ela escolhe virar as costas aos seus conterrâneos, durante a Segunda Guerra Mundial, fechando-se para o mundo e escolhendo ficar ao lado de seu amante nazista.
    Será que alguma vez ocorreu a ela que se cientistas respeitados estavam sendo presos pelo chefe do seu amante, talvez fosse hora de admitir que ela havia agido descuidadamente e que era preciso se livrar dele? Estar com um nazista era melhor do que estar sozinha?
    Muitos não a perdoam até hoje por esta atitude inexplicável e egoísta. Mas não se deve esquecer que boa parte das mulheres da alta sociedade francesa também abriu as portas de suas casas para festas regadas a oficiais alemães a serviço de Hitler. Coco só não sofreu o mesmo destino infeliz de suas companheiras, ao final da Grande Guerra, por intervenção de seu grande amigo Churchill.
    Reflexões sobre Chanel estão entremeadas a meditações saborosas da própria autora; há passagens realmente brilhantes, e uma delas, incluída no tópico sobre o tempo, discorre sobre a nova raça de supermães “sexys, hiperférteis e confiantes”, quando Karen está tentando imaginar como seria a vida afetiva de Coco se ela tivesse nascido em 1963. Este livro com certeza merece ser lido e relido; deve estar sempre na mesinha de cabeceira de toda mulher – e, porque não, dos homens que desejam conhecer melhor o gênero feminino.
    Uma nova raça de supermães sexys, hiperférteis, tranquilamente confiantes e ultra bem sucedidas que nos fazem sentir – a nós que temos um ou dois filhos e um emprego – pesos-leves multitarefa que vivem se queixando. Essa mulher é elegante, impulsiva, teve com um homem a quantidade de filhos suficiente para formar o seu próprio time de basquete, tem um marido sexy, bem-humorado, e uma casa bagunçada, feliz, caótica, povoada por uma ou duas babás, uma empregada e um cachorro excêntrico (...). Ela sempre tem uma aparência fabulosa, embora com os cabelos ligeiramente desalinhados, o que só aumenta o seu charme.
    Karen Karbo é uma escritora norte-americana, nascida em Detroit, nos Estados Unidos. Ela já publicou três romances - Trespassers Welcome Here, The Diamond Lane, e Motherhood Made a Man Out of Me -, todos considerados excelentes pelo New York Times, e quatro livros de não ficção, entre os quais se destacam How to Hepburn e Stuff of Life.
    Chesley McLaren é ilustradora de inúmeras obras e sua produção visual pode ser encontrada em diversas revistas como Town & Country, Vogue, InStyle e Elle. Seu traço, também impresso em seu trabalho como estilista, é considerado tão elegante quanto o das francesas.


    Autora: KARBO, KAREN
    Ilustrações: MCLAREN, CHESLEY
    ISBN: 9788598903149
    Assunto: BIOGRAFIA/MODA
    216 Páginas;
    Preço: R$ 29,90
    Capa: BROCHURA
    Editora: Seoman, 2010

    sábado, 9 de abril de 2011

    Ensaio - A Morte na Literatura de Vampiros

    No mundo moderno pagamos um alto preço pela inovação tecnológica, pelo fluxo incessante de novidades, informações e modismos; enfim, por todas as "facilidades" do dia-a-dia. A violência gratuita e o circo dos horrores invade os noticiários e trazem com eles a presença constante da morte.

    Por outro lado, essa personagem nunca foi tão negada e rejeitada como no universo em que vivemos. Por isso é tão importante que a literatura, principalmente a voltada para  o público infanto-juvenil, precocemente atingida pela morte, enfoque esta questão delicada e polêmica.

    Neste espaço vou estar sempre postando textos sobre livros que, na minha opinião, tocam de forma mais ou menos explícita neste tema.


    
    Anjo da Morte
    

    À primeira vista parece surpreendente que a recente onda de vampiros na literatura faça tanto sucesso e conquiste um número cada vez maior de adeptos. Algo que chama a atenção, porém, nesta leitura, é a questão da presença consistente do que se entende por sobrenatural.

    O mundo contemporâneo avançou, sem dúvida, no campo das descobertas científicas, do avanço tecnológico, das explicações racionais, da sociedade esclarecida e asséptica; o Homem parece caminhar na direção de um universo semelhante ao previsto pelo escritor Aldous Huxley, em sua obra Admirável Mundo Novo, no qual não há mais lugar para a dor, o sofrimento e a morte, sanados e exilados da vida humana através de pílulas desenvolvidas para esse fim.

    Deste cosmos humano foi expulso também o encantamento, mas não sem um alto preço a se pagar por esta exclusão. Todas as eras e civilizações conviveram sem problemas com mitos, lendas, histórias e ‘causos folclóricos’; pode-se dizer que nossa era é uma exceção a esta regra implícita. Isto, sem dúvida, abala o emocional do ser humano, pois um elemento fundamental de sua psique está sendo extirpado gradualmente, com a ajuda do entorpecimento provocado pelo consumismo desenfreado.

    Porém, nenhuma conquista tecnológica substitui o encanto mítico, a presença de uma esfera que transcende a realidade e ajuda o Homem a trabalhar suas emoções e, principalmente, suas perdas. Vivemos em uma sociedade que tenta, a todo custo, eliminar até mesmo a presença da morte, inevitável na jornada humana, e passa a acreditar que é indestrutível, eterna e imortal, ignorando inclusive a própria História - testemunha de impérios e civilizações que desmoronaram e jazem sepultadas há milênios, vítimas da passagem implacável do tempo.

    Mas o ser humano necessita de uma dose de fantasia na sua existência, como defende, entre outros, o Professor Antonio Cândido. Daí o inegável sucesso das novelas e tramas cinematográficas, assim como da literatura. Por esta razão, talvez não seja tão assombroso o impacto provocado pela saga Crepúsculo, de Stephenie Meyer, e de outra série que consta nas listas dos mais vendidos, A Morada da Noite, de P. C. Cast e Kristin Cast, entre outras obras que têm como protagonistas os ancestrais vampiros.

    Embora ela encontre adeptos em todas as faixas etárias e gêneros, é inegável que a maior parte dos leitores é composta por adolescentes. Este público é o que se encontra mais imune à alienação desencadeada pelos mecanismos que regem a era pós-moderna e, portanto, o mais acessível às questões existenciais, tão bem trabalhadas por estas autoras em seus livros.

    Temas como a vida humana, o seu valor, a eternidade, a existência em um outro plano, e a morte, vista principalmente como um fator de transformação, não de finitude, são discutidos amplamente nestas obras. É curioso perceber que nem mesmo o vampiro é visto como um ser indestrutível e imortal nesta literatura; apesar de, em famílias adeptas de um vampirismo mais ‘clean’, ou seja, vegetariano, como na série Crepúsculo, eles viverem até mesmo por centenas de anos, esta entidade sobrenatural jamais é descrita como um ser destinado à eternidade.

    Se até mesmo um vampiro, como Edward, de Crepúsculo, se preocupa com o destino de sua alma, acreditando que está condenado por ter se transformado nesta criatura, o que há de errado com o ser humano, que, em muitos casos, nem mesmo acredita que em seu interior habita uma essência semelhante a esta? È uma das questões que o adolescente pode, mesmo inconscientemente, despertar em sua mente.

    E quanto à morte, tão presente nestes livros, principalmente em A Breve Segunda Vida de Bree Tanner, de Meyer, e nos volumes que compõem a Morada da Noite? Nesta série esta imagem é onipresente, pois nem todos os novatos marcados pela deusa Nyx para serem futuros vampiros passarão realmente pela transformação. Alguns deles não conseguem atravessar este limiar; mas, curioso, há vários tipos de morte, e nem todos os aspirantes a vamps morrem de verdade, e sim passam a viver em uma espécie de limbo, ou de semivida.

    Na saga Morada da Noite os vampiros, ou seja, os que concretizaram a passagem, também não são definidos como seres imortais; alguns podem viver centenas de anos, outros encontram o fim da existência de forma precoce e violenta. Aqui, mais do que nos outros livros, é frisada a importância do livre-arbítrio concedido a cada ser, a escolha que pode determinar a luz ou as sombras, a redenção ou a destruição.

    Em Academia de Vampiros a trama parte da experiência de perda de uma das personagens principais, Lissa Dragomir, uma vampira que viu sua família morrer em um acidente no qual apenas ela e sua melhor amiga, Rose Hathaway, sobreviveram. Sua estrutura emocional fica definitivamente marcada pela partida de seus pais e do irmão que ela idolatrava.

    Mas é na saga Mundo das Sombras que a morte, pelo menos no primeiro livro, O Vampiro Secreto, está ainda mais presente. Ela é praticamente a protagonista da história, pois é abordada de forma profunda pela autora, L. J. Smith. Esse momento único da existência humana é enfocado com delicadeza e sabedoria; é esta passagem para o desconhecido que leva Poppy a se transformar em uma vampira.

    Questões como estas, e outras tantas presentes na literatura de vampiros, preenchem, pelo menos parcialmente, a carência do ser humano, que desconhece, hoje, o significado da vida e da morte, as implicações das decisões adotadas por cada um, os valores morais, a importância dos mitos e do sobrenatural na compreensão da própria trajetória humana.

    É preciso, porém, um trabalho mais profundo em torno destes temas, por meio de educadores e outros pensadores, em um esforço interdisciplinar e inter-religioso, no sentido de orientar os leitores destes livros na compreensão do potencial oculto nas suas entrelinhas, com o objetivo de resgatar o encantamento de outras eras e a própria imagem da morte, em sua antiga face de fenômeno natural. Talvez, assim, o Homem consiga eliminar um mal maior, a violência, comum, principalmente, entre esses mesmos adolescentes.

    quarta-feira, 6 de abril de 2011

    Lançamento: "Jogo de Poder" (Valerie Plame Wilson)

    Oi pessoal! Aqui está um superlançamento da Editora Cultrix/Seoman: Jogos de Poder. Em breve estarei postando a resenha por aqui. Por enquanto, segue a sinopse.



    Recentemente estreou no Brasil o filme Jogo de Poder, protagonizado por Naomi Watts e Sean Penn, baseado no livro desenvolvido por Valerie Plame Wilson, ex-agente da CIA. Alguns leitores devem se lembrar, ao menos vagamente, do escândalo que envolveu a invasão ao Iraque, comandada pelo presidente George Bush, a pretexto de impedir a aquisição massiva de armas nucleares pelo Estado iraquiano.
    Nesta época Valerie era uma prestigiada e competente agente do serviço secreto norte-americano; seu currículo era irretocável após 18 anos de trabalho junto à CIA; ela atuava como espiã na esfera da inteligência, quando descobriu que o país invadido era inocente da acusação forjada pelo governo dos Estados Unidos. Ou seja, os iraquianos não estavam propagando armamentos nucleares de grande porte.
    Ao mesmo tempo o diplomata Joseph Wilson, seu marido, viaja para o continente Africano a serviço de seu país e ratifica a teoria de sua esposa, publicando um artigo sobre suas descobertas no jornal New York Times. Esta iniciativa desencadeia uma série de traições e maquinações políticas.
    Em meio a este jogo poderoso, a identidade supersecreta de Valerie é revelada na mídia, o que compromete seu relacionamento conjugal, seu escudo protetor, a segurança de seus familiares e a de suas fontes em outros países. Logo em seguida a agente é dispensada de seus serviços e, indignada com a situação, decide compor uma obra na qual ela possa denunciar a realidade dos fatos.
    Mas, como qualquer agente que trabalhou na CIA, ela tem que entregar os originais ao departamento de censura. Após uma luta judicial que se estendeu por vários anos, Valerie triunfou parcialmente e publicou seu livro, o qual traz em suas páginas várias tarjas pretas que denunciam os cortes impostos pela CIA. Este artifício permite ao leitor ter pelo menos indícios de eventos, datas e lugares que tanto a agência secreta quanto a Casa Branca preferem ocultar.
    No posfácio elaborado pela jornalista Laura Rozen é possível encontrar dados fundamentados em entrevistas e em contatos públicos; desta forma torna-se mais acessível o contexto histórico e o leitor pode comprovar o extremo profissionalismo e o caráter da ex-agente secreta. O livro já se tornou um sucesso de vendas nos Estados Unidos.
    Valerie Plame Wilson é ex-agente secreta da CIA e, depois da tempestade que atravessou sua vida, reside hoje em Santa Fé, no Novo México, nos Estados Unidos. Atualmente ela ministra diversas palestras, direcionadas aos mais distintos públicos; apesar de estar desiludida com seu país, ela ainda encontra forças para estimular a juventude a trabalhar junto ao governo norte-americano, para que, assim, possam modificar os caminhos impostos pelas autoridades constituídas.
     Vale a leitura, não acham?

    Autora: Valerie Plame Wilson
    ISBN: 978-85-98903-25-5
    Assunto: Biografia
    440 Páginas;
    Preço: em definição
    Capa: brochura;
    Formato: 16,0 cm x 23,0 cm              
    Editora Seoman, 2011