quinta-feira, 11 de abril de 2013

"O Inverno das Fadas" (Carolina Munhoz)


O leitor é convidado aqui a escalar as montanhas de Bassenthwaite e ingressar no universo dos Sídhes. A ele é permitido surpreender fadas e elfos em sua mais profunda intimidade. Em pleno Samhain, quando o véu entre o mundo dos humanos e o dos povos mágicos é rompido, é possível espiar o interior do palácio do Governador Arawn e conhecer sua neta, Sophia Coldheart, uma fada nada comum.


Cabe ao ser feérico desempenhar uma missão na esfera humana: seduzir, encantar, enfeitiçar artistas talentosos, pessoas que se destacam no meio da multidão e trazem consigo o dom de criar. Ela é, portanto, uma musa. Inspira homens e mulheres que apresentam um potencial especial, seja na música, no cinema, no teatro, nas artes plásticas ou na literatura.

Sophia os fascina em seus sonhos ou face a face. Seja como for, sua presença arrebata almas e corações. Suas caças, ansiosas por glória, fama e prazer, logo se curvam diante da fada loira e bela. Mas sua beleza é fatal; a criatura mágica sempre cumpre sua palavra e seus amantes recebem o que desejam; porém tudo tem seu preço, e o seu é alto e irreversível.

Donald, Jade, Brad, Mickey, Richard, Britney, entre outros tantos, jamais se enquadrariam em uma vida longa, todavia comum; eles aspiram algo mais e nem por um instante se permitem medir as conseqüências de seus desejos; na verdade, seriam capazes de qualquer coisa para conquistar a glória imortal, até mesmo mergulhar em um processo de completa autodestruição que invariavelmente culmina em um fim trágico.

Donald tinha, sim, um amigo imaginário, mas nunca foi louco. Ao crescer, o transformou em uma amiga e, naquele momento, no quinto dia do quarto mês, a mesma sugava sua última gota de energia. Ele perdia a alma à medida que esquecia o motivo de sua existência e, ao ter os últimos sopros de vida extraídos por ela, sentiu-se em um forte dia de inverno, mesmo sendo uma ensolarada manhã de primavera. 

Sim, compactuar com Sophia, uma Leanan Sídhe, é quase como se lançar nos braços de sua prima Banshee, a Fada da Morte. Pois não há salvação para estas almas consumidas pela febre de uma vida fora do comum. Enquanto isso, a Rainha do Inverno, famosa por seu coração de gelo e sua incapacidade de amar, se alimenta da energia destes humanos à medida que os inspira na criação de suas obras-primas, até estar completamente abastecida, como um vampiro que suga suas presas para sobreviver. Se assim não agir, Sophia morre.

Assim foi com sua mãe, que se apaixonou por um elfo. Contra todas as expectativas e riscos, eles se casaram. No entanto seu pai não resistiu ao poder da esposa e, logo após o nascimento de Sophia, partiu nos braços da morte, logo seguido por sua amada. A fada loira sabe que este será seu destino se algum dia cair nas armadilhas do amor, algo que lhe parece completamente impossível.

Até o dia em que conhece William, um escritor dotado de raro dom, mas condenado ao anonimato em uma cidadezinha do condado de Cúmbria, Keswick, um lugarejo povoado por lendas e histórias sobre os povos encantados. A princípio ele é apenas mais um doador de energias para Sophia, mas pouco a pouco o jovem intriga a fada. Há algo de diferente no inglês, sua personalidade é tecida por outra substância, distinta da que animava seus antigos amantes.

Quando se dá conta, Sophia está completamente apaixonada por William, sem saber como nem o porquê. Ele corresponde intensamente aos seus sentimentos e, ao contrário dos demais, se tivesse que escolher entre o que sente pela fada e a glória eterna, teria uma opinião bem diferente, apesar de ter perspectivas promissoras quando se candidata ao prêmio literário Helen Beatrix Potter.

Ele odiava o papo de inspiração. Aquela conversinha de sentar pela primeira vez e escrever uma historinha achando estar arrasando. Para ele, escrever era passar dias e noites em claro, lutando com as palavras para conseguir montar algo que, um dia, iria modificar a vida de uma pessoa. Naquele momento, estaria tocando o interior dela. Sua função como escritor e ser humano estaria completa. Mas, nos últimos meses, algo o perturbava. O garoto que nunca foi de fantasiar em suas histórias começou a perceber que inseria seres mágicos nas obras. (...)
Ele sempre achou tudo uma bela maluquice, só que vinha sonhando com um ser que com certeza se tratava de um Sídhe. 

Sophia nunca imaginou que um dia poderia se apaixonar por alguém. E agora, o que fazer? Como impedir que William seja também consumido por seus encantos? Até onde irá a fada para salvar o escritor? E ele, terá forças para morrer por sua amada e ao mesmo tempo preservar a integridade de sua alma? Ou terá o mesmo fim dos outros, o suicídio?

Sophia é uma personagem incomum, uma espécie de anti-heroína. Ora surpreende o leitor com atitudes heroicas e inesperadas, ora o choca com as lembranças de comportamentos sombrios e condenáveis. É capaz de atos nobres e de um desapego ímpar em alguns momentos, porém em outros revela uma postura egoísta e implacável.

Carolina entretece sua narrativa mágica com inúmeras alusões ao universo pop, críticas sutis à indústria cultural, à manipulação e corrupção das almas dos que não resistem às promessas de fama, glória e poder, e com profundas reflexões sobre a natureza espiritual do ser humano, o sentido da existência e o legado histórico e cultural do Homem.

- Eu AMO essa música!
- (...) Essa é a Cold, Cold Heart da Dinah Washington!
- (...) Eu conheço essa música pela Norah Jones.
                                    (...)
- (...) Posso ser o Harry Potter de Keswick. Não ligo. Até se eu fosse um Cullen não iria ligar para os comentários dessa cidade. 
                                    (...)
O que seria o Homem? E o seu legado?
Sophia achava que a História sempre possuiu grande importância na compreensão da humanidade (...) A Leanan achava que se os humanos abandonassem a história, poderia resultar em um rompimento grave com a própria identidade cultural e pessoal do mundo. (...)
William seria uma representação histórica para a cultura de seu povo e do povo das fadas. Ele iria reunir dois povos distintos em uma mesma história. (...) O garoto iria mudar o mundo. Essa seria sua maior herança. 

Uma ideia genial é intitular cada capítulo com o nome ou o trecho de uma música, sempre relacionado ao seu conteúdo. Ícones da cultura nerd estão também aqui e ali ao longo da narrativa, como os personagens de O Senhor dos Anéis e Star Wars, hackers, e o game World of Warcraft.

Também há referências literárias, como uma homenagem à maior autora de literatura infantil de todos os tempos, Beatrix Potter, criadora do inesquecível Peter Rabbit, e musicais: Dinah Washington, Norah Jones, entre outras. Aliás, a autora resgata a própria protagonista de A Fada, Melanie Aine, que tem uma participação especial nesta narrativa.

É divertido tentar descobrir que celebridades se ocultam sob os nomes fictícios, tentando unir as pistas oferecidas pela autora. Mickey, por exemplo, certamente se refere ao cantor Michael Jackson, enquanto Maganus deve ser o alterego de Paulo Coelho. Ao mesmo tempo, é triste relembrar o destino de tantos artistas repletos de energia e talento. Mas, como diz Sophia, sempre há esperança. E oportunidade de redenção.



Carolina Munhóz é jornalista e escritora. Fã da saga Harry Potter, ela foi um dos membros do Potterish, um dos sites mais importantes sobre o célebre bruxo; e teve a oportunidade de conhecer os protagonistas da série ao visitar os Estados Unidos. Nesta ocasião, justamente aos 18 anos, viajou por vários países, entre eles Inglaterra, França, Itália e Suíça.

Suas peripécias atraíram o foco da mídia, tais como Folha de São Paulo, Estadão, TV Cultura, Disney Channel, rádio Record de Londres e Época, revista que a comparou a autoras do quilate de Cassandra Clare e Alexandra Adornetto. Hoje a jovem escritora se dedica de corpo e alma à literatura e atua amplamente nas redes sociais. E é musa de seu próprio autor, que também lhe inspira sem cessar, o marido Raphael Draccon. 


Editora: Fantasy/Casa da Palavra

Autora: Carolina Munhóz

Origem: Nacional

Edição: 1

302 Páginas

Preço: R$ 33,00

Capa: Brochura

Formato: Médio




quarta-feira, 10 de abril de 2013

"Como Dizer Adeus em Robô" (Natalie Standiford)


Esta história tem tudo para se tornar cult também no Brasil. Ela realmente promete! Eu amei a sinopse; aliás, só se encontra algo sobre o livro em inglês. Mas a editora Record promete lançar ainda este mês a versão brasileira. É torcer e já começar a contar os segundos, como eu. 



Nesta história que já se tornou cult nos Estados Unidos, dois jovens desajustados são intensamente atraídos um pelo outro. Jonah é um adolescente solitário e sarcástico. Bea é uma garota incompreendida pela mãe, uma mulher emocionalmente instável que apelida a própria filha de robô quando ela não consegue expressar sua dor diante da morte de seu bichinho de estimação, um gerbo.

Surpreendendo os colegas, o jovem pálido e reservado, maliciosamente chamado de Garoto Fantasma por seus companheiros, se torna amigo da nova aluna do colégio. E todos ficam mais surpresos ainda quando os dois se envolvem em uma intensa relação platônica.

Imediatamente Bea se dá conta de que tem mais afinidade com Jonah do que com as garotas maliciosas e incomunicáveis que a cercam. Ela passa a confiar cada vez mais no novo amigo, mesmo quando seu passado estranho e trágico vem à tona. Certamente os adolescentes, especialmente os que vivem à margem da vida social, vão se identificar com este conto lunático e sombrio.

Além dos detalhes que permitem a este público a identificação perfeita com os personagens, a autora também tece ao longo da trama várias referências culturais, como os filmes dirigidos por John Waters e o músico ‘outsider’ Daniel Johnston. A narrativa em primeira pessoa, conduzida por Bea, vai cativar o leitor e o enredo imprevisível o manterá engajado até a última linha.

Decididamente Natalie criou nesta obra uma anti-história de amor com todos os contornos de uma narrativa cult e um sabor semelhante ao encontrado em outro livro cultuado pelos jovens leitores, As Vantagens de ser Invisível, de Stephen Chbosky. Pode-se afirmar, sem margem de erro, que ela construiu uma narrativa honesta e complexa que não passa por cima de questões perturbadoras.

Os personagens secundários, especialmente os frequentes programas de entrevistas, são retratados com um peculiar humor dissimulado. Certamente os adolescentes terão uma empatia incomum com as emoções intensas de Beatrice e Jonah, e compreenderão mais que ninguém as razões que os levaram a sentir que foram feitos um para o outro.

Natalie Standiford nasceu na cidade de Baltimore, em Maryland, nos Estados Unidos. Ela trabalhou no departamento de Livros Infanto-Juvenis da editora Random House por três anos, passando de assistente editorial a Editora Assistente. Foi um aprendizado perfeito para alguém que, como ela, já alimentava o sonho de ser escritora.

Logo descobriu que não queria ser editora, e sim autora em tempo integral. Em um período de transição, deixou o emprego efetivo e tornou-se freelancer. Iniciou sua trajetória literária escrevendo e-readers, livros de imagens e obras infanto-juvenis. Atualmente está escrevendo para adolescentes. A autora também toca baixo em uma banda chamada Tiger Beat.

Fontes:

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

"Ainda Não Te Disse Nada" (Mauricio Gomyde)



Posto aqui o livro do Maurício justamente quando ele conquistou um super feito: a obra será publicada nos países de língua inglesa. Não é demais?! O autor merece, pois nenhum outro homem conseguiu traduzir tão bem a alma feminina. Com leveza e delicadeza ele desnuda este universo e conquista o coração de suas leitoras (e dos leitores também, estou certa disso).


Quem não desejaria protagonizar uma história como esta? Apaixonar-se pela intensidade das palavras de um homem misterioso, desconhecido, atemporal? Um elo gerado pela escolha de um momento, guiada por uma força gravitacional que impele dois seres de terras distantes a um destino aparentemente impossível, porém ao mesmo tempo inevitável.

Marina Albertini é uma garota do século XXI, moderna, não consegue imaginar como é possível, nos dias atuais, se corresponder com alguém por meio de cartas; afinal, um e-mail é mais veloz e prático, e o retorno é quase imediato. Por que perder tempo com tantas palavras se basta uma mensagem quase cifrada, bem ao estilo dos torpedos virtuais?

Mas a protagonista não é como as jovens de seu tempo. Embora suas melhores amigas, Thaís, escritora à procura de si mesma, e Francesca, mãe da garotinha Ciça, sejam sonhadoras e no fundo anseiem também por uma realização afetiva, a romântica Marina destoa do mundo em que vive. Ela mais parece uma personagem do século XIX à procura do homem ideal.

Marina é uma jovem linda, inteligente, decidida, talentosa. Filha de um padeiro de origem italiana, criada para seguir os passos do pai, ela deixa a cidadezinha de São Pedro da Serra e vai para São Paulo realizar um de seus maiores sonhos: ser estilista e se destacar no universo da moda.

Marina até poderia ter continuado na pequena São Pedro da Serra (...) Assumir a padaria, sustento dos pais, o caminho natural para a vida. (...) Mas tudo o que ela não queria era ter certeza das coisas. (...) O projeto era viver o mundo da moda, (...) O ofício aprendido desde pequena com a avó, quando sentava a seu lado e costurava as roupas das bonecas do jeito que a velha fazia nas roupas da família, ganhou lugar insubstituível na parte do destino que lhe cabia interferir.

Para financiar os estudos ela trabalha em período integral no Correio. Sua rotina se resume ao trabalho e à parada quase diária na livraria mais próxima, onde através das revistas de moda é transportada para outras dimensões, e nestas esferas mágicas exercita um estilo próprio ao copiar os modelos em voga. Sempre com a cumplicidade de Seu Patrício, o atendente do café.

O próximo desembarque de seu dia-a-dia é o Istituto Europeo di Design, Scuola di Moda a San Paolo; aí ela se diverte com Thaís e Francesca, e dribla as cantadas do professor de fotografia, o sedutor Luca, herdeiro de uma tradicional família italiana, proprietária de uma cantina em São Paulo, com quem manterá um breve e desastroso relacionamento.

No fim da noite a jovem retorna ao apartamento e reencontra Nina, seu peixe de estimação, com quem se identifica profundamente na solidão e na sensação de ser cativa de um tempo ao qual não pertence. Seus momentos de realização pessoal são aqueles em que se dedica ao mundo da moda, especialmente através do blog www.amodademarina.com.br.  Aí ela expõe seu trabalho e recebe um gratificante feedback de suas seguidoras.

Mas o futuro de Marina revela surpresas inesperadas, as quais colocam em cheque suas crenças e a levam até mesmo a questionar suas escolhas profissionais e existenciais. Tudo muda quando ela conhece Júlia, a misteriosa ruiva que uma vez por semana posta uma enigmática carta na mesma agência da protagonista.


Desde o início ela chama a atenção de Marina e de Dona Jane, sua melhor amiga no trabalho e fã incondicional das antigas cartas trocadas entre dois apaixonados. Um dia, no café, ela tem a oportunidade de conhecer melhor a cliente, que se identifica como O Anjo Carteiro.

- (...) Você escreve cartas pra uma pessoa que não conhece, como se fosse outra que também não conhece?
(...) – Mas quem contrata dita as cartas?
- Nada! Quem contrata dá as informações iniciais sobre as duas pessoas e depois vou sozinha, na criatividade.
- Nossa... E funciona?
- Funciona, porque as pessoas pra quem escrevo querem que tudo seja verdade ela parou, fechou os olhos por dois segundos e abriu devagar. – Não é questão de ser ou não verdade... A verdade mora em quem acredita, entende?

A partir deste momento ela se apaixona pela ideia de se passar por outra pessoa com a intenção de levar conforto e bem-estar a pessoas solitárias que nunca mais tiveram contato com entes queridos. Graças ao Anjo Carteiro elas podem ser novamente felizes, mesmo que tudo não passe de uma ilusão.

Pouco tempo depois uma carta de Portugal, destinada à Amada Eterna e enviada para a Caixa Postal 787, vai parar nas mãos de Marina. Tentando encontrar sua destinatária, mergulha em uma jornada sem volta. Ao saber que Julia de LaRocque está morta, não resiste à tentação e acaba lendo a carta.

É imediatamente fisgada pelo encantamento tecido por Heitor em cada linha, e logo descobre que Julia é o Anjo Carteiro que conheceu. Após um breve impasse, Marina assume a identidade da Amada Eterna, Milena Carvalho. A jovem nunca mais será a mesma, pois a cada carta ela se sente mais ligada ao seu autor; e até onde sabe ele é um homem de pelo menos 70 e poucos anos.

Entre pétalas de rosas, cavalos lusitanos, vinho e música portuguesa, Marina é pouco a pouco seduzida por uma história cada vez mais envolvente e pelo poder de palavras que aproximam dois mundos ao mesmo tempo tão próximos e tão distantes. Seria loucura se apaixonar pela alma de alguém?


Gostaria de terminar estas palavras com o trecho de uma das canções que mais gosto, do Pedro, cantor, nascido aqui no Porto. Peço que Lourenço cante para mim todas as vezes que vem cá: “Largo a espera e sigo o sul. Perco a quimera, meu anjo azul. Fica forte, sê amada. Quero que saibas que ainda não te disse nada. Pede-me a paz, dou-te o mundo"...

(...) Não queria admitir, mas estava apaixonada por um monte de palavras, por uma história que não lhe pertencia.

(...) - É muita loucura gostar da alma de alguém?    
  
Nem mesmo a possibilidade de finalmente realizar o sonho de trabalhar em Paris, através de um concurso da revista Elle em parceria com a grife francesa Gus & John, alivia seu coração. A inusitada troca de cartas só acentua sua sensação de não pertencer a este mundo, mas Marina não consegue refrear o estranho impulso de seguir adiante, como se o destino a impelisse rumo a um propósito maior.

Maurício tece esta narrativa romântica com delicadeza, maestria e poesia insuperáveis. Mestre na arte de contar histórias, ele transforma a leitura em uma experiência saborosa e inesquecível. Suas cartas intensas e apaixonadas despertam sonhos e desejos adormecidos e tocam a alma da mesma forma que os acordes mágicos da canção de Pedro Abrunhosa, da qual o autor colheu o título deste livro encantador, cativante, divertido e comovente. É genial o contraste entre dois estilos de vida, representados pelas correspondências apaixonantes e pelos e-mails objetivos e práticos, sem vida.  
      
Não é difícil acreditar que é realmente possível se apaixonar pela magia das palavras, bem como pelas notas de uma melodia. Em Ainda Não Te Disse Nada o autor alia duas de suas maiores paixões: a música e a literatura. Ele se projeta literariamente em Thaís e na sua incessante busca da inspiração. E na esfera musical Maurício se espelha no músico português Henrique Lourenço e também na trilha sonora de Marina para cada momento de sua vida, especialmente naqueles em que cria seus modelos.  


Maurício Gomyde é paulistano, porém atualmente reside em Brasília. É escritor, baterista e compositor. Ele publica suas obras de forma independente através do selo criado pelo próprio autor, o Porto 71. Seu livro de estréia é o Mundo de Vidro. Recentemente o escritor lançou O Rosto Que Precede o Sonho.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                   

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

"Visões da Morte" (Gary Braver)


Mais um lançamento surpreendente da Editora Jangada. Estou contando os minutos para ter em minhas mãos este livro e poder devorar cada linha. E, claro, compartilhar com vocês esta trama arrepiante!




Muitos se questionam sobre a vida depois da morte. Quem nunca parou para tentar adivinhar o que acontece logo após sua partida? Mas, e se não houvesse a necessidade de estar morto para ter a absoluta certeza de que a dimensão celestial realmente existe? Porém, e se, por outro lado, desejassem sua morte justamente por conta desta revelação? Seria um alto preço a pagar por sua descoberta?

Nesta trama eletrizante, Zack Kashian, um aluno de pós-graduação, mergulha em um estado de coma depois de sofrer um trágico acidente de bicicleta. Alguns meses se passam e o protagonista desperta sussurrando o Pai-Nosso no idioma original, o aramaico.

Este evento atrai os holofotes da mídia, de devotos religiosos exaltados e de uma comunidade de neurocientistas que investiga em segredo as vivências de quase morte. Eles teriam encontrado provas concretas de existência depois da morte? Ou os fatos estão conectados a uma disciplina conhecida como neurobiologia, como supõe uma das pesquisadoras do grupo, a jovem Sarah Wyman?

Ao mesmo tempo em que todos se esforçam para compreender as aterradoras experiências fora do corpo, poderes sombrios, para os quais as vivências de quase morte chegam a ser ofensivas, convocam um cruel assassino que, em nome do Criador, será capaz de qualquer recurso para eliminar o projeto e todos que a ele se conectam.

Editora: Jangada, 2012

Autor: Gary Braver

Origem: Nacional
Edição: 1

496 Páginas

Preço: R$ 39,90

Capa: Brochura

Formato: Médio






quarta-feira, 14 de novembro de 2012

"A Fada" (Carolina Munhóz)

Pessoal, aproveitando a reedição de A Fada, da Carolina Munhóz, pela Fantasy/Casa da Palavra, posto aqui finalmente a resenha já publicada no site Infoescola. Para mim, foi uma leitura inesquecível; deve ser livro de cabeceira de todos os apaixonados pelos seres encantados.


Reedição de A Fada

Poucas narrativas me levaram a uma identificação tão completa como a tecida por Carolina Munhóz. Sua fada não é um mero produto da fantasia humana, e sim real e concreta como cada um de nós. Ela não está mergulhada em um universo etéreo e encantado, e sim numa profunda crise existencial.


As desventuras de Melanie Aine, Mel para os íntimos, têm início na comemoração de seus 18 anos; finalmente, depois de alimentar tantos sonhos e desejos, ela conquista a oportunidade de ter a celebração de seu aniversário, com direito a festa surpresa e até mesmo a um presente, um misterioso livro de encantamentos.

Ainda não pode contar com amigos entre seus convidados, pois sua casa isolada na Epping Forest, que mais parece um castelo medieval, é distante o suficiente de Londres para não atrair colegas de escola; além disso, a sensação de ser diferente de todos não é muito animadora em termos de popularidade no colégio. Assim, a festa se resume à presença dos pais e de um casal de amigos.

Um presente! Além de uma festa, estava recebendo um presente no dia do meu aniversário. Ninguém conseguiria entender a imensa felicidade que senti. Os fogos de artifício explodindo no peito. A sensação de ser uma pessoa normal. Ter pais normais. Pais que davam presentes em datas comemorativas.
Recebi um livro grosso, marrom, muito velho, com uma aparência até mofada. Mas não ligava. Porque ele era meu. Havia sido dado por meu pai.

A chama de alegria e choque que anima a alma de Mel logo se apaga. Ao tentar adormecer, é surpreendida com uma dor lancinante na lombar, acompanhada de um aroma intenso de algo queimado. Surge assim, nas suas costas, a imagem de uma fada, como se fosse uma tatuagem em sua pele.

Neste momento, porém, a protagonista está ocupada demais para refletir sobre o estranho evento, pois surpreende seu pai aos berros, e segue em seu socorro. A partir deste momento, tudo acontece muito rápido; sua vida se transforma definitivamente e ela parece ingressar em um pesadelo sem fim.

Mel perde o pai, descobre que é uma fada e sua mãe parte para a dimensão de Fairyland, atravessando um portal mágico e deixando a filha perplexa e sozinha no mundo dos humanos. Cabe à Ciale governar este reino no lugar da jovem, até que ela possa assumir seu trono; mas isto só vai ocorrer depois que a protagonista cumprir sua missão na Terra.

Jovens costumam ganhar presentes caros, passagens aéreas ou festas surpresas em aniversários de dezoito anos. Eu ganhei o falecimento do meu pai, o abandono de minha mãe, uma estranha tatuagem e a descoberta de que não era humana.  (...)
Até minha mãe, que deveria me acompanhar para o resto da vida, havia me abandonado feito uma cegonha sem apego. Com isso, tornei-me uma pessoa pessimista, algo estupidamente parecido com uma velha amargurada olhando a vida passar de uma janela ou algum troll de internet descontando sua fúria nos posts de um blog de pouco acesso.




Ela, porém, desconhece totalmente o seu destino, está perdida, sem rumo, imersa em uma tristeza infinita. Mel chora pela perda do pai e pelo suposto abandono da mãe, e seus únicos amigos são os italianos Olinda e Vincento. Mas em um dia muito especial, 23 de outubro, a garota conhece o menino Patrick e Arthur Wales, descendente de uma família de bruxos, duas presenças masculinas essenciais em sua vida.

Enquanto vive um romance turbulento com Arthur, Mel tenta encontrar sua própria identidade, um lugar no seu mundo, e a si mesma, pois só assim poderá finalmente compreender que tarefa sagrada a mantém ligada à esfera humana. Em alguns momentos ela sente emergir de um recanto em sua alma algo semelhante à felicidade; os outros momentos de sua existência são povoados por medos, dúvidas, angústias e revolta.

Os difíceis momentos vividos por Mel simbolizam, sem dúvida, o ritual de transição vivenciado por cada um de nós em busca de um sentido para nossas vidas, principalmente na adolescência e na juventude. Daí a identificação que o leitor pode sentir em relação à protagonista.

Senti-me estranha. Vazia. Notei que, por ser diferente, estagnei. Perdi a sensação gostosa de viver aproveitando cada minuto. Como se fosse o último.
Se pudesse suplicar por um desejo, pediria por essa sensação pelo menos por alguns segundos. Apenas isso. Quando tememos nosso destino, ficamos preocupados. Ao saber que algo vai interferir em nossa jornada, tememos aproveitá-la. Havia decidido. Mesmo decepcionada, precisava descobrir a minha missão. Ninguém poderia me ajudar.
Apenas o dono daquele olhar cativante.

Cada parte é precedida por uma bela ilustração e pela demarcação temporal e espacial da narrativa; a trama se desdobra a partir de uma epígrafe que resume a essência da história: o quanto é fundamental que se acredite nas fadas para que elas possam sobreviver. A citação é extraída da clássica obra de JMM Barrie, Peter Pan.

A viagem do leitor pelas 222 páginas deste livro traz surpresas e revelações sem fim, até a conclusão inesperada da narrativa; confesso que quase sempre consigo antever o final de uma obra, mas este realmente me surpreendeu. E devo dizer também que me encantou, não sei se vocês vão concordar comigo. Afinal, é sempre estimulante quando uma obra consegue provocar alguma polêmica.

A leitura dos agradecimentos finais é também muito ilustrativa, pois dá a entender que, em algum momento, Carolina teve contato com fadas, e por esta razão elas protagonizam sua história, a qual é certamente dedicada a estes seres mágicos e iluminados. Como a Mel que passou como um raio por sua vida e inspirou este livro.

A Mel entrou nela rápido e da mesma forma saiu, mas a marca que deixou em mim foi profunda e acho que nunca a esquecerei. Fiz-lhe uma promessa, de vencer, de realizar meus sonhos! (...) A única coisa de que tenho certeza é que um dia irei reencontrá-la. Nesta ou em outra encarnação!




Carolina Munhóz é jornalista e escritora. Fã da saga Harry Potter, ela foi um dos membros do Potterish, um dos sites mais importantes sobre o célebre bruxo; e teve a oportunidade de conhecer os protagonistas da série ao visitar os Estados Unidos. Nesta ocasião, justamente aos 18 anos, viajou por vários países, entre eles Inglaterra, França, Itália e Suíça.

Suas peripécias atraíram o foco da mídia, tais como Folha de São Paulo, Estadão, TV Cultura, Disney Channel, rádio Record de Londres e Época, revista que a comparou a autoras do quilate de Cassandra Clare e Alexandra Adornetto. Hoje a jovem escritora se dedica de corpo e alma à literatura e atua amplamente nas redes sociais. 

Editora: Fantasy/ Casa da Palavra

Autora: Carolina Munhóz

Origem: Nacional

Edição: 1/2012

256 Páginas

Preço: R$ 25,40

Capa: Brochura

Formato: Médio




terça-feira, 23 de outubro de 2012

"Fábrica de Diplomas" (Felipe Pena)


Deseja mergulhar em uma trama policial arrepiante? Recomendo sem hesitar este romance!
Com esta obra, a princípio intitulada O Analfabeto que Passou no Vestibular, Felipe dá início à trilogia do campus, composta também por O Marido Perfeito Mora ao Lado e O Verso do Cartão de Embarque. Os três volumes são protagonizados por Antonio Pastoriza e o narrador, na terceira pessoa, tece um complexo retrato psicológico de cada personagem.

É divertido imaginar que Antonio possa ser o alterego do escritor, pois não casualmente os dois são graduados em Psicologia, lecionam na Universidade e exercitam a literatura ou, como frisa o protagonista, uma espécie de ficção jornalística policial. Embora Pastoriza crie somente em sua língua nativa, o espanhol, e se oculte sob pseudônimos inusitados.

Apesar de não ser um detetive profissional e muitas vezes duvidar de seu poder de análise, é sempre indicado para investigar casos complexos que se desenrolam no contexto universitário. Neste caso ele é diretor da Faculdade de Psicologia da Bartolomeu Dias e auditor da Universidade.

Quando Adriana, uma estudante de Farmácia da Unidade Tijuca, vizinha do Morro do Borel, é atingida em pleno campus, após uma fuga alucinada pelas ruelas estreitas da favela, o reitor e proprietário da Universidade, Jaime Ortega, pede a Pastoriza que desvende o significado de uma letra de funk encontrada junto à aluna e descubra qual a conexão deste papel com o crime.

Aos poucos uma rede intrincada se revela. Qual a ligação entre Lucas, o analfabeto que passou no vestibular da Universidade, e altas figuras da sociedade carioca? Porque ele atirou em Adriana? O iletrado é realmente um ignorante que mal sabe se expressar? Como Nicole, ex-namorada do analista, obtém seus furos de reportagem?

Quem é o Doutor? Qual o papel de Vasconcelos, chefe da Polícia Civil, nesta trama ardilosa? Há algum vínculo entre a venda de cotas da Universidade para os americanos e o crime no campus? Até onde iria o senador Raul Silvério, proprietário do Centro Universitário Provinciano, para destruir Ortega, seu principal adversário?

Pena mergulha no cerne do conflito entre as milícias e o crime organizado. Duas estruturas marginais que se revezam nos morros cariocas e dominam seus moradores. É entre esses poderes paralelos que Adriana acidentalmente se interpõe. Na letra do funk ela inscreve uma mensagem misteriosa, em torno da qual a trama se desenvolve.

À medida que Pastoriza, com a parceria e cumplicidade do detetive Rover, segurança da Faculdade, avança em suas investigações, expõe inevitavelmente as entranhas da Universidade, indicando os rumos preocupantes do ensino em nosso país. Sua ligação com os meandros da política, da imprensa e do crime organizado alimenta uma estrutura viciada que compromete os rumos da educação no Brasil.

Felipe Pena é certamente um bom contador de histórias. Às vezes divaga ao discorrer sobre a decadência da educação universitária, principal foco de sua obra. Nestas ocasiões o autor quebra um pouco o ritmo da trama eletrizante, mas seu poder de unir perfeitamente todos os fios da trama transforma essas digressões em mais um artifício narrativo.

O autor intensifica o suspense ao concluir cada capítulo com uma ponta de mistério. Ele constrói e desconstrói seu romance policial com desenvoltura e boas doses de ironia. Ao mesmo tempo que cria uma história saborosa neste gênero tão desprezado no Brasil, ele se sente à vontade para refletir sobre o mesmo e até para tecer algumas críticas saudáveis, especialmente através de Pastoriza.

Transparece no texto a paixão do escritor pelos romances policiais; aqui e ali tece inúmeras referências literárias, particularmente aos autores deste gênero, como Rubem Fonseca e Dostoiévski, que explora esta vertente em alguns de seus clássicos. Mas também cita Freud e Ferenczi em suas viagens psicanalíticas. Mesmo assim Pena não se enquadra na categoria dos escritores que esbanjam erudição e escrevem para raros; faz questão de privilegiar o leitor, não os críticos. 

Muitas surpresas e reviravoltas aguardam o leitor nesta jornada. A revelação da identidade do vilão é surpreendente. Aliás, esta é uma das passagens mais brilhantes do livro. Nela o autor aproveita para meditar sobre a própria estrutura narrativa do gênero policial através de seu protagonista, quando assume a posição do leitor e tenta através de seu olhar descobrir quem é o Doutor. Genial!
 Felipe Pena é jornalista, psicólogo, doutor em Literatura pela PUC-Rio, pós-doutorado em Semiologia pela Universidade de Paris/Sorbonne III, leciona na Universidade Federal Fluminense, mas se considera um ignorante por decisão própria. Também escreve roteiros para TV e crônicas para o Jornal do Brasil. O autor reside no Rio de Janeiro.

Editora: Record

Autor: Felipe Pena

336 Páginas

Ano: 2011

Volume: 1

Preço: R$ 34,90

Capa: Brochura

Formato: Médio

Edição: 1

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

“Jung, O Místico” (Gary Lachman)


Outro super lançamento da Editora Cultrix, não só para os estudantes de psicologia, mas também para todos os interessados em compreender as questões humanas essenciais que atravessam a nossa era.
 
 

Carl Jung é incansavelmente considerado o “pai-fundador da Nova Era”. Mesmo assim ele fazia questão de impedir que seu nome fosse ligado explicitamente ao universo místico ou sobrenatural, embora sua existência tenha sido povoada por vivências sobre-humanas.

O autor esmiúça a biografia e a obra de Jung sob o ângulo dos paradigmas esotéricos cultivados no Ocidente e insere o analista na mesma esfera de outros significativos pensadores do esoterismo.  Ele investiga sua vida, seus esforços para vencer os desafios da jornada e as relações com o outro.

Esta nova biografia do terapeuta analisa explicitamente e de forma breve o desempenho essencial das concepções, práxis e vivências místicas de Jung em sua trajetória profissional; aqui está presente outra dimensão de um dos mais importantes pensadores da era moderna.

Editora Cultrix, 2012

Autor: Gary Lachman

Origem: Nacional

Edição: 1

280 Páginas

Preço: R$ 39,50

Capa: Brochura

Formato: Médio


 

 

 

terça-feira, 2 de outubro de 2012

“O Mercador de Livros Malditos” (Marcello Simoni)

Aqui vai mais um lançamento quente da Editora Jangada. Com certeza é um daqueles thrillers eletrizantes que não deixamos de lado até chegar à última página. Assim que ler, prometo contar mais detalhes. Por enquanto, segue a sinopse do livro.
 
 
Em 1205 um religioso escapa de um regimento de cavalaria com um tesouro nas mãos, um artefato que não pretende ceder a seus adversários. Treze anos se passam e um aristocrata de Veneza confere uma tarefa a Ignazio de Toledo, um vendedor de relíquias. Ele deve encontrar uma obra muito rara, a qual pretensamente traz em suas páginas as regras ancestrais da cultura dos talismãs orientais, com as quais se podem evocar seres angelicais e seu saber sagrado.
Desta forma tem início a perigosa jornada de Ignazio. Ele sai à procura de um manuscrito que foi dividido em quatro frações e prudentemente oculto, selado com complexos enigmas. O problema é que o livro é disputado também por outras pessoas. Quem será o primeiro a encontrar seu esconderijo? E até que ponto aqueles que o buscam estarão dispostos a se arriscar para decifrar seus enigmas?
 
Editora Jangada, 2012
Autor: Marcello Simoni
Origem: Nacional
Edição: 1
368 Páginas
Preço: R$ 39,90
Capa: Brochura
Formato: Médio

terça-feira, 25 de setembro de 2012

"Agora é Pra Valer!" (Márcia Luz)


Pessoal, esse é um livro realmente especial. Embora seja hoje um sucesso na lista dos mais vendidos na categoria de negócios, ele tem o poder mágico de transformar cada um de nós. Basta ler, exercitar e querer.
Poucos livros me surpreenderam e me emocionaram tanto. Não concordo que as lições aqui contidas se dirijam tão somente aos executivos, à esfera empresarial. Acredito que todos se identificam com os princípios expostos nesta obra, pois de uma forma ou de outra, em nossas vidas, assumimos várias vezes o papel de líder.

Aliás, mesmo quando não temos a oportunidade de vivenciar a liderança, alguns conceitos ainda assim se aplicam a nossa existência. É fundamental refletir sobre os princípios que a coach, Beatriz Sampaio, transmite ao protagonista, o gerente Lúcio Queiroz.

Logo na Introdução a autora esclarece que se inspirou em vários gerentes que passaram por seu consultório na criação de seu personagem. Assim, fica claro que seu perfil psicológico não é mera ficção, e sim fruto de uma realidade ainda persistente em nossos dias. É curioso perceber que não é uma questão de faixa etária, pois Márcia enfatiza que muitos deles são mais novos que seu explosivo empresário.

E garanto que qualquer semelhança com a realidade não terá sido mera coincidência. Não inventei nada, nenhuma das atitudes extremas do personagem, por incrível que possa parecer, foram fruto de minha imaginação. Apenas misturei episódios protagonizados por alguns gerentes que conheci em meus 20 anos de trajetória como formadora de gestores.

Lúcio é diretor comercial do Grupo Brandão. Ele é casado há mais de vinte e quatro anos com Vera, mas seu empenho obsessivo na esfera profissional provocou o fim de seu matrimônio. Não suportando mais a desatenção e a indiferença, a esposa pede a separação e se afasta definitivamente do marido, embora seu coração ainda insista em ser fiel a ele.

O executivo segue em sua jornada autodestrutiva. Educado em um contexto repressor, guiado pela diretriz de que ‘manda quem pode e obedece quem tem juízo’, ele alimenta uma mentalidade conservadora e um gênio terrível. Discípulo dos preceitos exercitados por antigos gestores, ele acredita realmente que está agindo corretamente ao intimidar, desrespeitar, julgar, acusar e demitir seus funcionários, sem ao menos ouvi-los ou dar-lhes uma segunda oportunidade.

Ele passa como um trator sobre todos, sem sequer se importar com as conseqüências. Tudo que deseja é superar metas a cada ano e preparar a seara para que seu filho, Alexandre, assuma posteriormente a presidência da empresa. Lúcio não percebe, porém, a dimensão do abismo que se estabelece entre ele e seu herdeiro.

Alexandre, seu pai tem dez anos a mais do que eu. Isso não é desculpa para ser tão retrógrado, eu sei. Ele aprendeu a gerenciar por tentativa e erro. Foi criado num mundo onde o militarismo imperava. O “manda quem pode obedece quem tem juízo” era considerado o lema da época. Lúcio sempre teve dificuldade para se relacionar com gente, então se escondia atrás de uma carga monstruosa de trabalho. (...) Olha, todos temos na cabeça o pai ideal e o pai real. Amadurecer é perceber que o pai ideal não existe.

Alexandre representa novos valores, mudanças de paradigmas irrefutáveis, um modelo de gestão mais humano, que dá ênfase ao diálogo, ao respeito, à compreensão do outro. Aos poucos esse choque de ideais e de visão de mundo gera uma distância inevitável entre pai e filho. A ruptura total se concretiza em um episódio envolvendo Suzana, uma das vendedoras do Call Center.

Lúcio se irrita com ela quando a jovem transmite uma informação incorretamente; sem nem mesmo se importar com sua gravidez avançada, ele a agride verbalmente e chega ao auge da cólera quando a gerente da equipe intervém; irado, bate a porta com tanta intensidade que ela se despedaça em milhares de fragmentos. Suzana imediatamente procura Alexandre, receptivo e atento com os subordinados.

Alexandre fica chocado com a atitude paterna; os dois travam uma discussão acalorada e o jovem pede demissão. Além disso, avisa ao pai que irá trabalhar com seu maior adversário, Jairo Martins, outro representante da gestão moderna. Tudo se agrava quando o jovem deixa o apartamento que divide com Lúcio.

O coração do protagonista não resiste e ele quase morre. A partir deste momento ele passa a refletir sobre sua vida, especialmente porque não recebe uma única visita no hospital. É neste contexto que conhece Beatriz Sampaio, voluntária no Cardio Help. A princípio ele não aceita ajuda, mas logo desmorona diante da doçura e da competência da coach.

O fundo do poço não era o lugar onde eu queria estar nesta tarde de sábado. Mas como poderia me sentir de outra forma deitado num leito de hospital depois de quase morrer? O que me vem à cabeça não são flashbacks ou simples recordações do passado; a minha estória pregressa me afeta hoje, me afeta nesse momento, embora lá vão pelo menos dez anos desde que meu mundo começou a desabar.

Gradualmente Lúcio percebe que não pode mais continuar agindo da mesma forma. Disposto a mudar, ele se alia a Beatriz e com sua assessoria vai tecendo sua mudança interior e uma nova concepção de gestão. O primeiro passo é conhecer a si mesmo; o segundo é perceber como é visto pelos demais; o terceiro é se aceitar totalmente; o quarto é despertar no íntimo o seu melhor. Aqui permito ao leitor que caminhe até a conclusão da narrativa e descubra por si mesmo a quinta lição, a mais significativa, essencial para todos.

Uma etapa de cada vez, Lúcio vai superando obstáculos e dificuldades e vencendo seu pior adversário, ele mesmo. Aprende a buscar a opinião dos outros sobre suas atitudes, e a dar o feedback positivo a seus subordinados. Encontra em sua essência forças para se controlar, humildade e o poder de amar e perdoar.

Quem de nós nunca sentiu a necessidade de se modificar, de consertar erros cometidos, de reconhecer suas fraquezas, de estabelecer intimidade com as pessoas a nossa volta, de perdoar e ser perdoado? Este livro permite ao leitor se tornar um ser humano melhor se estiver disposto a percorrer o mesmo caminho seguido por Lúcio Queiroz.

Márcia presenteia o leitor não somente com um livro, mas antes de tudo com um roteiro que nos permite conquistar uma segunda oportunidade. Marcas e cicatrizes permanecem, mas mesmo elas nos preparam para o necessário amadurecimento emocional e espiritual, e assim um novo eu pode emergir e alçar vôos mais ousados.

Li somente com os olhos, mas vez por outra os lábios acompanhavam:

Quando diz coisas estando em momentos de raiva, suas palavras deixam marcas como essas. É o mesmo que enfiar uma faca em alguém, e depois retirá-la. Não importa quantas vezes peça desculpas, a cicatriz continuará lá. Uma agressão verbal é tão ruim quanto uma agressão física.

É. A cicatriz ficou. O desafio é não produzir outras.

A trama, bem estruturada e inteligente, diverte e ao mesmo tempo emociona o leitor. A leitura é leve, fluida e saborosa. E proporciona momentos de indispensável reflexão. A capa é criativa, lembra na verdade uma história apocalíptica, atmosfera que traduz perfeitamente a sensação de aniquilação de um velho ser e seu renascimento.
Márcia Luz é psicóloga, pós-graduada em Administração de Recursos Humanos, especialista em Gestalt-terapia e mestre em Engenharia de Produção. É também coach executiva e pessoal. Ela é sócia-presidente da Plenitude Soluções Empresariais Ltda. A autora publicou igualmente outros livros: Lições que a Vida Ensina e a Arte Encena;  Outras Lições que a Vida Ensina e a Arte Encena; e Construindo um Futuro de Sucesso.
Editora DVS, 2012
Autora: Márcia Luz
Origem: Nacional
Edição: 1
176 Páginas
Preço: R$ 18,50
Capa: Brochura
Formato: Médio