quarta-feira, 6 de abril de 2011

Lançamento: "Jogo de Poder" (Valerie Plame Wilson)

Oi pessoal! Aqui está um superlançamento da Editora Cultrix/Seoman: Jogos de Poder. Em breve estarei postando a resenha por aqui. Por enquanto, segue a sinopse.



Recentemente estreou no Brasil o filme Jogo de Poder, protagonizado por Naomi Watts e Sean Penn, baseado no livro desenvolvido por Valerie Plame Wilson, ex-agente da CIA. Alguns leitores devem se lembrar, ao menos vagamente, do escândalo que envolveu a invasão ao Iraque, comandada pelo presidente George Bush, a pretexto de impedir a aquisição massiva de armas nucleares pelo Estado iraquiano.
Nesta época Valerie era uma prestigiada e competente agente do serviço secreto norte-americano; seu currículo era irretocável após 18 anos de trabalho junto à CIA; ela atuava como espiã na esfera da inteligência, quando descobriu que o país invadido era inocente da acusação forjada pelo governo dos Estados Unidos. Ou seja, os iraquianos não estavam propagando armamentos nucleares de grande porte.
Ao mesmo tempo o diplomata Joseph Wilson, seu marido, viaja para o continente Africano a serviço de seu país e ratifica a teoria de sua esposa, publicando um artigo sobre suas descobertas no jornal New York Times. Esta iniciativa desencadeia uma série de traições e maquinações políticas.
Em meio a este jogo poderoso, a identidade supersecreta de Valerie é revelada na mídia, o que compromete seu relacionamento conjugal, seu escudo protetor, a segurança de seus familiares e a de suas fontes em outros países. Logo em seguida a agente é dispensada de seus serviços e, indignada com a situação, decide compor uma obra na qual ela possa denunciar a realidade dos fatos.
Mas, como qualquer agente que trabalhou na CIA, ela tem que entregar os originais ao departamento de censura. Após uma luta judicial que se estendeu por vários anos, Valerie triunfou parcialmente e publicou seu livro, o qual traz em suas páginas várias tarjas pretas que denunciam os cortes impostos pela CIA. Este artifício permite ao leitor ter pelo menos indícios de eventos, datas e lugares que tanto a agência secreta quanto a Casa Branca preferem ocultar.
No posfácio elaborado pela jornalista Laura Rozen é possível encontrar dados fundamentados em entrevistas e em contatos públicos; desta forma torna-se mais acessível o contexto histórico e o leitor pode comprovar o extremo profissionalismo e o caráter da ex-agente secreta. O livro já se tornou um sucesso de vendas nos Estados Unidos.
Valerie Plame Wilson é ex-agente secreta da CIA e, depois da tempestade que atravessou sua vida, reside hoje em Santa Fé, no Novo México, nos Estados Unidos. Atualmente ela ministra diversas palestras, direcionadas aos mais distintos públicos; apesar de estar desiludida com seu país, ela ainda encontra forças para estimular a juventude a trabalhar junto ao governo norte-americano, para que, assim, possam modificar os caminhos impostos pelas autoridades constituídas.
 Vale a leitura, não acham?

Autora: Valerie Plame Wilson
ISBN: 978-85-98903-25-5
Assunto: Biografia
440 Páginas;
Preço: em definição
Capa: brochura;
Formato: 16,0 cm x 23,0 cm              
Editora Seoman, 2011



quarta-feira, 30 de março de 2011

Resenha - "O Garoto da Casa ao Lado" (Irene Sabatini)

Esta obra é a mais poética, arrebatadora e dolorosa visão sobre o processo de amadurecimento do Zimbábue, país africano colonizado pelos ingleses no século XIX, após a descoberta de ouro em suas terras. O pioneiro Cecil Rhodes, que investiu no desenvolvimento desta nação, inspirou seu nome antigo, Rodésia, que permaneceu em voga até a conquista da independência, em 1980.
Convivem neste território os ancestrais shonas, de procedência banto, e os ndebele, de naturalidade zulu, que desembarcaram neste país no século XIX. Há também os rhodies, brancos africanos. É neste contexto que se desenrola a história de amor e a maturação emocional de dois jovens zimbabuanos, Lindiwe e Ian.
Mamãe, papai, Rosanna e eu tinhamos assistido à Cerimônia de Independência na televisão, há mais de dois anos. O Príncipe Charles parecia meio triste quando lhe deram a bandeira britânica; tinha a boca muito firme, como se estivesse fazendo força para não chorar, para não envergonhar a Rainha. Em toda a semana anterior, o Herald fizera uma lista das beldades zimbabuanas brancas que seriam noivas perfeitas para o príncipe.
A autora enfoca o relacionamento entre a garota negra, que acaba de completar 14 anos, e o jovem branco, de 17 anos, acusado de matar sua madrasta ao incendiar seu corpo. Tudo acontece na casa ao lado da que a família de Lindiwe reside. Este evento marca não só a cidade de Bulawayo, mas também a vida destes adolescentes, que estão apenas iniciando sua trajetória existencial.
Aos poucos seus passos convergem para as mesmas trilhas, seus corações passam a balançar no mesmo compasso, apesar de todas as diferenças étnicas, sociais e comportamentais. Eles pertencem a mundos distintos, mas nada os impede de mergulhar em uma paixão proibida, que pode virar suas vidas de cabeça para baixo.
Enquanto falava, eu pensava que não se parecia com nenhum dos brancos que eu já tinha visto em Bulawayo. Tentei descobrir se eu sentia isso apenas porque estava começando a conhecê-lo. Se eu não o conhecesse, se o visse nas ruas, será que pensaria "ah, olha ali um rhodie, saudosista da Rodésia"? Tentei refletir sobre o que o tornava diferente para mim, o que eu gostava nele; quis fazer uma lista na minha cabeça. Mas era difícil fazer uma lista, pois eu parecia voltar sempre a um só ponto: ele é Ian, o garoto da casa ao lado, a pessoa que estou começando a conhecer.
Ian McKenzie provém de um ambiente familiar conturbado. Ele foi supostamente abandonado pela mãe aos 6 anos e logo cedo teve que aprender a conviver com a brutalidade e o alcoolismo de seu pai, um veterano de guerra, e com uma madrasta que lhe impunha terríveis humilhações, além de levar sempre um amante novo para casa na ausência do marido.
Lindiwe Bishop também é filha única; seu pai era pardo, mas orgulhoso de sua origem racial; ele trabalhava nos Correios, no setor de telecomunicações, e ocultava terríveis segredos sobre sua participação nos confrontos pela Independência do país. Sua mãe, negra, mas preocupada em agradar os brancos, refugiava-se na Igreja e obrigava sua filha a agir como as crianças rhodies.
Minha escola nova era outrora uma Escola Grau A, exclusiva para brancos. Eu passara por uma prova de ingresso. Papai torceu a boca; não gostava quando mamãe falava em pardos e negros. Ainda que todos o classificassem como pardo (ele tinha pele clara, cabelo bom e nariz reto), ele não se via assim. (...) Tinha orgulho da mãe, que o criara em Nyamandhlovu. Seu pai era um fazendeiro branco que concordara em colocar seu nome na certidão de nascimento e pagara por seus estudos.
Apesar de todas as impossibilidades, os caminhos de Ian e Lindiwe estão sempre se cruzando, mesmo depois do tempo em que permanecem distantes, quando seus destinos parecem navegar por águas totalmente distintas. A intensidade do sentimento que os une, porém, transcende desafios e obstáculos, sejam eles pessoais ou emergentes do panorama político-social, indissociável dos problemas raciais e existenciais de cada zimbabuano.
Além dos protagonistas, a narrativa é povoada por personagens inesquecíveis, como o guerreiro Maphosa; a doce Rosanna; a sensual Bridgette; e, do lado sombrio, Robert Mugabe, chamado ironicamente de Bob por seus adversários, que subiu ao poder em 1980 como líder socialista, permaneceu como presidente e ainda continua no comando do país, após diversas eleições controvertidas.

Residência em Bulawayo

E aí vai, aí vai o nosso querido presidente e intrépido primeiro viajante (o Vasco da Gama africano, partindo para descobrir mundos perdidos, como o definiu gloriosamente o secretário-geral do centro acadêmico), trajando as mais finas vestimentas, alegre e entusiasmado como um garotinho de escola. Realmente, por que não? Uma vida de serviço aos outros deve certamente, certamente, ser recompensada um dia. Nada mais justo.
Nesta história rica em informações históricas e culturais, entretecida por uma linguagem em alguns momentos poética, e em outros instantes crua e assustadora, a autora se espelha na protagonista. Ela também cresceu em Bulawayo, consumindo vorazmente os livros da biblioteca pública local; foi igualmente para a Universidade e se deixou seduzir pelo fascínio de outras culturas e experiências.
Seus personagens são tão nítidos, suas trajetórias tão vívidas, que chegamos a acreditar na sua real existência, tão tangível como a história de seu país. Ian e Lindiwe representam, talvez, o futuro de uma nação que ainda não se concretizou; eles são frutos da mente inventiva e esperançosa de uma zimbabuana que acredita em seu país, apesar de toda a destruição que testemunhou.
"As pessoas estão desesperadas", repetem todos. As pessoas estão desesperadas. Estamos seguindo rapidamente pelo caminho da África do Sul. Sequestros e coisas assim. Os jovens veem todos aqueles Pajeros e também querem enriquecer rápido. Veem a corrupção e o roubo entre os mais velhos, então por que não eles? Por que têm de morrer de fome, sacrificar-se, ser panacas como seus pais? Por que têm que ficar para trás? Não. Sem chance. Vão botar as mãos no que desejam, rapidinho. Se o governo não lhes arruma empregos, vão se virar por conta própria.
Não posso também deixar de mencionar que um dos personagens principais deste livro é a memória; são seus fios que conduzem o leitor através das lembranças de Irene Sabatini; elas são praticamente convertidas em cenas cinematográficas na nossa mente, tamanha a riqueza de detalhes presente nas descrições do Zimbábue recém-independente e na revelação de sua profunda decadência posterior.
Irene Sabatini decidiu se aventurar por outros países após concluir os estudos universitários; escolheu a Colômbia, pela profunda sintonia com sua cultura. Foi aí, ao meditar em um antigo monastério dominicano, que lhe veio a inspiração deste livro, seu primeiro romance, premiado com o Orange Award 2010 na categoria autora revelação.

Autor:  SABATINI, IRENE

Editora: NOVA FRONTEIRA
Assunto: LITERATURA ESTRANGEIRA - DRAMA
ISBN: 9788520922354

Origem: NACIONAL
Ano: 2011
Edição: 1
Número de Páginas: 411
Acabamento: BROCHURA

sábado, 26 de março de 2011

Estátuas de Sal (André Cardinali)

Este é um dos livros mais marcantes, perturbadores e surpreendentes que já li. Quando iniciei sua leitura, que por si só já é uma jornada existencial de autoconhecimento, descobertas e transformações, não poderia jamais imaginar que cada página me levaria de um mergulho completo nas sombras até um novo despertar.
Assim, o leitor mais atento pode se tornar a companhia ideal de Alice, a protagonista, em sua viagem ao encontro de si mesma e das respostas que tanto busca; eles poderão seguir juntos e compartilhar cada questionamento, dúvida, reflexão, confusão e angústia.

Nos outros bancos, pessoas rezavam fervorosamente para agradecer, pedir auxílio, achar conforto... Deus atendia suas preces, disso eles tinham certeza, mas nem sempre era como eles queriam, porque Ele sabe o que é melhor para todo mundo e, às vezes - e a Aliança no altar lembrava isso -, era preciso agir duramente com os humanos para que eles entendessem. Bom, isso era o que ela costumava pensar.
O prólogo do livro indica uma trama eletrizante e nos leva a alimentar vastas expectativas relativas ao desdobramento da história. Mas quem espera por uma sequência ininterrupta de ação e suspense acaba se decepcionando no início da narrativa, que se passa mais no interior de Alice. Esta etapa, porém, é fundamental para o desenvolvimento do enredo, e exige uma boa dose de atenção e concentração.
É neste momento que o autor apresenta sua personagem, talvez uma espécie de alterego, por meio da qual ele mesmo revela sua visão sobre Deus, ou melhor, a evolução de seu ponto de vista. Á medida que os dilemas interiores de Alice se tornam familiares, nos convidando, muitas vezes, a partilhar de suas indagações e questões, a trama vai adquirindo outras tonalidades e conquistando outros rumos. Quando o leitor se dá conta, já está totalmente envolvido e não consegue mais se desligar da história.

Nascemos para nos encontrar com ele e viver em Sua Paz eternamente, após a morte. (...) Entretanto, a questão continua a se aplicar: por quê? Por que um ser Onipotente, Onisciente e Onipresente precisaria de seres inferiores como nós? Para fazer o quê? A pergunta ficava no ar, naquele ar pesado, preso no apartamento há dias e que zanzava pelos cômodos, sem se reciclar, já que nenhuma janela ou porta havia sido aberta.
Há dez anos a cidade de São Paulo, considerada o centro do pecado e da corrupção, das sombras e do desprezo aos ensinamentos do Criador, foi destruída, supostamente por um Deus colérico que se volta contra suas criaturas quando perde as esperanças com relação à Humanidade.
Alice perde a mãe nesta tragédia que se abateu sobre uma das maiores metrópoles do Planeta, e agora seu pai também está morto, e tudo indica que ele cometeu o suicídio. A jovem, porém, não consegue acreditar nesta versão. Após permanecer algum tempo isolada em seu apartamento, sem forças para continuar a viver, ela decide sair em busca de respostas. Não só em relação à morte de Alberto Villela, mas também e talvez principalmente no que diz respeito a Deus e ao que ela considera Sua máxima traição.

Estátuas de sal, lembrava-se da expressão. Ela designava um suicídio em massa. Desde o incidente em São Paulo, muitas pessoas se suicidaram nas cidades que faziam fronteira com a antiga capital. Em todos os casos, os suicidas deixaram cartas (...) Algumas cartas ainda chegavam a atacar Deus, discordando de sua atitude de destruir a cidade, afirmando que "não fazia sentido". (...) O nome era uma referência à mulher do profeta Ló da história de Sodoma. (...) A mulher, no entanto, no momento da destruição da cidade, virou-se e transformou-se em uma estátua de sal.
Para continuar viva, a protagonista precisa encontrar o sentido da existência, agora que o Criador decidiu aniquilar seus filhos; afinal, porque Ele os criaria para logo depois destruí-los? Ao receber uma enigmática correspondência, ela segue as pistas nela contidas e inicia uma jornada que a conduz até as ruínas de São Paulo, na qual a entrada de qualquer ser vivo foi proibida após o evento apocalíptico que a atingiu.

Da morte, da destruição, surgia a vida. Não era assim no mundo inteiro, desde o começo? O ciclo da vida e da morte. Os átomos que compunham o corpo de Alice já compuseram uma árvore, um animal, outra pessoa. A própria alimentação já representava esse ciclo. Matar para viver, mesmo que fosse tirar a vida de um vegetal. Morte e vida se completam, pensou. São lados da mesma moeda. Um não existe sem o outro.
Nestes dias sombrios em que estamos mergulhados, esta é com certeza uma leitura indispensável. Ao longo do caminho o autor transmite, por meio de enigmas e inusitadas profecias, profundas reflexões sobre a Divindade, tolerância religiosa, o Demônio, o bem e o mal, a vida e a morte, entre outras tantas questões que afligem a alma humana.
André Cardinali é certamente um jovem atípico. Com apenas 23 anos ele já escreveu quatro romances, é graduado em Rádio e TV, atua como roteirista, repórter, compositor e escritor. Nascido em Piracicaba, no interior de São Paulo, aos 7 anos ele já surpreendia a professora de Português com suas redações. Estátuas de Sal é sua primeira publicação, uma iniciativa da Editora Novo Século, que dedica um de seus selos editoriais aos novos talentos brasileiros.


Autor:  CARDINALI, ANDRÉ
Editora: NOVO SÉCULO
Assunto: LITERATURA NACIONAL - DRAMA
ISBN: 9788576793755
Origem: NACIONAL
Ano: 2010
Edição: 1
Número de Páginas: 296
Acabamento: BROCHURA

sexta-feira, 11 de março de 2011

Indicação - Educação e Espiritualidade - Interfaces e Perspectivas (Dora Incontri, org.)


 

Nesta obra a principal preocupação é a reflexão sobre o diálogo interreligioso, praticado a partir das salas de aula, no interior de um planejamento interdisciplinar e pluralista. Várias linhas educacionais são apresentadas em suas páginas, e mesmo as propostas mais modernas estão fundamentadas nas sólidas bases implementadas por educadores como Comenius, Janusz Korczak, Pestalozzi e Allan Kardec, seu discípulo.

Os organizadores deste volume reservam um espaço para a manifestação de cada vertente religiosa significativa do mundo contemporâneo, permitindo que seus representantes esbocem sua visão de uma pedagogia multidisciplinar que propicie ao aluno a aquisição de valores morais imprescindíveis, sem que um corpo doutrinário lhe seja imposto. Este caminho conduz ao estabelecimento da tolerância e à aceitação das diferenças.

No texto Educação e Espiritualidade - quando, como e porquê -, da educadora e organizadora deste livro, Dora Incontri, em parceria com o pedagogo Alessandro César Bigheto, os autores fazem um levantamento histórico do ensino religioso nas escolas, da interação entre educação e religião, dos abusos das religiões institucionais, passando pela separação entre o laico e o sagrado, até atingir outra posição radical, a do extremismo materialista, nada isento de implicações ideológicas. No mesmo artigo eles propõem um olhar de síntese, que transcende o fanatismo religioso e também a postura cética e pessimista dos materialistas, a partir da análise das teorias de Pestalozzi, Kardec e Erich Fromm.

A tentativa democrática ocidental dos últimos séculos de separar o Estado da religião, e com isso fazer uma educação pública, laica, afastada do domínio religioso, justifica-se como reação histórica à repressão secular das igrejas, à imposição religiosa que povos inteiros sofreram.
Entretanto, como em todo processo dialético, em reação a determinado extremismo, surge outro extremismo, às vezes tão intolerante quanto aquele que se quis contestar.

Laura Lippman e Hugh McIntosh expõem em seu ensaio o índice de incidência da espiritualidade e da religiosidade entre os jovens nos Estados Unidos. A pesquisadora do tema Educação Religiosa, Marian de Souza, discorre sobre a carência de paixão e entusiasmo nas aulas de religião e apresenta um modelo curricular enraizado em um aprendizado holístico, veiculado a partir de um vínculo profundo entre percepção, pensamento, sentimento e intuição, por meio do qual o ser vivencia o mundo.

O filósofo e educador Regis de Morais é o responsável por um dos mais belos textos que compõem esta obra – Deus, a Ciência e a Educação -, no qual ele se baseia no pedagogo espírita José Herculano Pires. O autor aborda com leveza e delicada veia poética a controvertida relação entre Deus, a Ciência e a Educação. Entre as várias passagens profundas e inesquecíveis, ele defende a prática da coragem humilde para a reconstrução da realidade educacional.

Herculano Pires demontra-nos que mil manobras sombrias foram empregadas, pelos milênios, pelo fanatismo religioso e pelos interesses político-institucionais para "a salvação da Humanidade", e tudo isso trouxe a um tempo de hipocrisias religiosas e morais e de ressentido materialismo.

A professora Ana Szpiczkowski é a produtora de outro artigo contagiante, que discorre sobre a vida e a atuação do educador polonês Janusz Korczak, que legou à Humanidade seu trabalho educacional único junto aos pequenos órfãos, através do qual ele desenvolveu um sistema de autogestão social. Judeu em plena era de perseguição nazista, ele optou por morrer ao lado de suas crianças no campo de Treblinka.
Em Diálogos entre o Oriente e o Ocidente o Doutor em Ciências da Religião, André Andrade Pereira, ressalta a importância de uma interação entre as religiões orientais e as ocidentais nas escolas, especialmente através da prática da meditação. Alexandre Leone é o representante da vertente judaica, e seu discurso se baseia na mística de Abraham J. Heschel, a qual contribui para a constituição de uma filosofia da espiritualidade judaica contemporânea.

Os demais textos que compõem a segunda parte desta obra, Educação e Espiritualidade, apresentam a visão católica – Luiz Jean Lauand realiza um esboço filosófico da construção do Catolicismo, destacando a importância de Tomás de Aquino; o ponto de vista budista, defendido por Tiago Pires Tatton Ramos, que cria uma aproximação entre o budismo, algumas vertentes psicoterápicas e o pensamento de determinados educadores, como Rubem Alves.

As tradições africanas também ganham um espaço importante neste livro, graças ao ensaio esclarecedor e fascinante do doutor em Ciências da Comunicação Juarez Tadeu de Paula Xavier, que realiza um estudo da oralidade africana através da análise bem-estruturada da cultura iorubá. Alysson Leandro Mascaro conclui esta esfera principal da obra com sua investigação inusitada dos laços que conectam religião e política, a partir dos quais ele produz sua visão da filosofia espírita.

O legado sagrado da palavra confere à humanidade a capacidade de criação. As palavras arquitetam cenários. Elas guardam uma dimensão mágica que faz vibrar todas as partes do universo. (...) Com essa vibração como eco de fundo é que se deve pensar a importância dos tradicionalistas em manter a autenticidade da transmissão oral.

Platão
A terceira parte deste livro abriga os textos que discorrem sobre Reencarnação e Educação. Daniel Donnet é o autor de dois ensaios iluminadores sobre esta temática; no primeiro ele aborda as filosofias indianas para localizar, no âmago deste pensamento, o papel do ego; no segundo, o Doutor em Filosofia e Letras se preocupa mais com as teorias tecidas pelos gregos antigos, passando pelo Orfismo, por Pitágoras e Empédocles, chegando a Platão, aos primeiros momentos do Cristianismo e finalmente à era romana. Alessandro Bigheto também se atém aos ensinamentos de Platão, que remetem à reencarnação e aos processos educacionais.

Figuram nesta divisão, igualmente, textos mais específicos, como os que narram o mecanismo de renascimento entre os trobriandeses, sociedade de natureza matrilinear, e os budistas; e casos de crianças portadoras de memórias passadas, especialmente no Sul e Sudeste da Ásia, no oeste asiático e africano, no Brasil e no noroeste da América do Norte. Ian Stevenson, um dos principais estudiosos do tema, também realiza suas incursões nesta esfera das existências passadas. Dora Incontri finaliza esta obra com sua exposição pessoal de um projeto de Pedagogia Espírita para as escolas brasileiras.

No Ménon (81b-d), por outro lado, Platão postula a pré-existência da alma em vidas anteriores para explicar sua capacidade de conhecimento:

Como a alma é imortal e veio várias vezes ao nascimento, e viu todas as coisas tanto aqui neste mundo quanto no Hades, fica excluído que ela não tenha aprendido nada. Não é, portanto, surpreendente que a respeito da virtude e de outras realidades, ela possa se lembrar daquilo que ela sabia anteriormente.

Deixei para o final a primeira parte porque ela reserva um cantinho especial para o tema Saúde e Espiritualidade, composto por três artigos. O primeiro, assinado pelo doutor em Medicina e Psiquiatria C. Robert Cloninger, pela psicóloga Ada Zohar e pelo educador Kevin Cloninger, fala sobre os cuidados com a saúde mental e as deficiências no quesito de promoção do bem-estar. O segundo, elaborado pelos psiquiatras André Stroppa e Alexander Moreira-Almeida, expõe os resultados de pesquisas sobre como a espiritualidade do paciente influencia as condições de sua saúde e a própria cura. O terceiro é o relato do processo de gestação do ProSER - Programa de Saúde, Espiritualidade e Religiosidade – no interior do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, elaborado pelo médico psiquiatra Frederico Camelo Leão.

Dora Incontri, organizadora deste volume, é jornalista, mestre, doutora e pós-doutora em Filosofia da Educação pela USP, diretora da Editora Comenius, coordenadora geral da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita e da pós-graduação de Pedagogia Espírita pela Universidade Santa Cecília e pelas Faculdades Integradas Espíritas.

Promoções

Oi leitores do Prosa Encantada!

Em breve estarei sorteando os primeiros livros neste blog.

Por enquanto pretendo conquistar a atenção de vocês com a minha paixão pelos livros, algo que temos em comum, certo?

Mas quem ler e comentar meus textos e seguir o blog já estará acumulando pontos para concorrer aos brindes. Portanto, não fique para trás, amplie suas oportunidades de ser sorteado. Aguardo vocês aqui no Prosa Encantada.

Resenha - "Linhas" (Sophia Bennett)


 
Se alguém espera encontrar aqui apenas mais um produto do gênero chick-lit, uma obra voltada somente para mulherzinhas, está enganado. Embora a princípio este livro realmente pareça navegar nesta direção, logo o leitor percebe que está diante de uma história completamente diferente, na qual nada parece ser o que é.

As protagonistas são aparentemente três adolescentes comuns, com sonhos, desejos, questões típicas da idade; por outro lado, porém, elas já definiram seus caminhos profissionais. Nonie, filha de uma ex-modelo e neta de uma fiel adepta da alta-costura, é apaixonada por moda, mas não sabe desenhar, nem tem o corpo apropriado para seguir os passos da mãe.

No caminho para o metrô, dois sujeitos de jaqueta e calças jeans encardidas berram do outro lado da rua:
- Esquisitona!
- Se enxerga, perna prateada!
Eddie passa um braço pelos meus ombros, de maneira protetora. Jenny segura minha mão. Mas eu estou acostumada com isso, não me importo mais. Se algum megadeus da moda debochar do jeito como eu me visto, talvez eu até fique ligeiramente abalada, mas caras vestindo jeans da cabeça aos pés não estão lá em posição de me criticar.

Jenny é uma ótima intérprete teatral, mas subitamente tem a oportunidade de iniciar uma carreira cinematográfica em Hollywood, a Meca dos astros e estrelas, com os quais irá conviver e contracenar nos tapetes vermelhos e sob os holofotes da mídia especializada. O problema é que isso acontece justamente quando seu corpo passa pelas terríveis transformações da adolescência, as fatídicas espinhas, os seios que crescem demais e o tão temido aumento do peso.

Edie é a garota que não se interessa tanto quanto as amigas pelas ‘futilidades’ da vida; seu passatempo, com certeza, não é percorrer alucinadamente as vitrines das lojas, como Nonie, que a inveja por ela ter um corpo de modelo, oculto sob roupas clássicas e convencionais. Seu sonho é ser um membro das Nações Unidas e transformar o Planeta; ela mantém um blog, pois tem a incrível necessidade de compartilhar suas ideias e tudo que sabe sobre as amigas, e nele divulga todas as causas que abraça.

A vida das amigas se modifica radicalmente quando elas conhecem Crow, uma menina de 12 anos, refugiada da Uganda, enviada por sua família para Londres não só com o objetivo de ter melhores oportunidades intelectuais, mas principalmente por razões políticas; é sua única chance de se manter viva. Dotada de um talento precoce e inacreditável para a moda, ela encontra neste universo um refúgio de suas tristezas e uma forma de tentar esquecer o passado. Quando seus caminhos se cruzam, nada será mais como antes.

Mas Crow vem do norte, perto do Sudão, e ali é tudo bem diferente. Há muitos anos o governo combate um grupo de rebeldes chamado Exército da Resistência do Senhor. Os rebeldes se escondem na mata e usam crianças para o combate. (...) As meninas eram obrigadas a ter filhos com os soldados. Por isso, as crianças que moravam nesses vilarejos distantes costumavam caminhar quilômetros e quilômetros todas as tardes até encontrar um lugar seguro em alguma cidade, onde houvesse gente capaz de protegê-las. (...) Eram chamadas de "os andarilhos da noite".
- E Crow era uma delas?

A história é narrada do ponto de vista de Nonie, a qual surpreende o leitor ao revelar ser muito mais que uma garota fútil e superficial. Ela é, com certeza, o alterego da autora, que aproveita este enredo para aliar suas duas paixões: a literatura e a moda. Além do mais, Sophia Bennett se vale de Crow para denunciar a triste realidade das crianças invisíveis da Uganda; Edie representa, nesta obra, a voz que se eleva em defesa desta infância perdida da África.

A autora consegue unir, nesta série que promete abalar não só o universo fashion, mas também um público mais eclético, uma história leve e ao mesmo tempo densa, engraçada, porém igualmente triste. Todos os ingredientes são mesclados nas proporções corretas, e o resultado é um livro original, saboroso e fluente, no qual não faltam nem mesmo doses de um suspense eletrizante. No final resta aquele desejo de já emendar a leitura do segundo volume. Tomara que a sequência seja logo publicada!

A máquina de costura preta está instalada na mesa de trabalho. As roupas prontas já estão na arara e nos cabideiros. Suas criações e inspirações favoritas estão em uma pilha alta de papel, prontas para ser presas com alfinetes em enormes murais nas paredes. Um vestido quase terminado veste o boneco. Moldes de papel cobrem a cama e o chão. Quando apareço para ver se está tudo bem, ela não consegue evitar um sorriso.

Sophia Bennett tinha um sonho desde criança, tornar-se uma escritora. Ao longo da vida, porém, alimentou outros desejos, como o de ser aeromoça ou autora de peças teatrais. Outro desejo intenso era ser estilista, mas seu fracasso como desenhista a impediu de seguir adiante no universo fashion. Antes de embarcar na trajetória literária, Sophia publicou alguns de seus escritos em veículos como The Times e Guardian; ela também criou quatro contos protagonizados por detetives. Hoje ela reside em Londres, ao lado do marido, de quatro filhos, várias árvores, patos e cisnes.


quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Ensaio - Moda e Literatura

Com este ensaio eu abro um espaço no blog para falar sobre os livros que têm a moda como tema ou personagem principal, um filão cada vez mais promissor no mercado editorial. Espero poder compartilhar com o leitor mais um gênero da literatura que me apaixona. Em breve vou postar um texto sobre o livro LInhas, da Sophia Bennett, exatamente sobre este assunto. Espero que vocês gostem.

Moda e literatura não são gêneros tão desconectados quanto aparentam ser, pois ambos trabalham com técnicas narrativas, estilos, criação e representação de realidades, além de mergulharem igualmente no universo do imaginário. As duas esferas procuram provocar impacto na mente humana, e se esforçam para mobilizar seus públicos com a criação de efeitos variados e intencionais.
Os estilistas, assim como os escritores, inspiram-se nos estímulos, nas vivências e em seus mundos externos e internos para produzirem suas criações. Algumas vezes os primeiros se baseiam em alguma obra da literatura universal para tecerem suas coleções, enquanto em outros momentos os literatos discorrem sobre o contexto ‘fashion’ em seus livros.
Em julho de 2006 o renomado Ronaldo Fraga invadiu as passarelas do São Paulo Fashion Week com modelos extraídos completamente do universo do escritor mineiro João Guimarães Rosa, especialmente de sua obra-prima Grande sertão: veredas. Sua coleção A cobra: ri – uma história para Guimarães Rosa é uma homenagem muito bem-vinda ao autor celebrado em todo o Planeta, justamente quando seu livro atinge a marca dos cinquenta anos de publicação.
O mesmo estilista já havia povoado sua criação com elementos retirados da obra de outro mineiro, Carlos Drummond de Andrade, um ano antes. Fraga alega que é apenas uma coincidência os dois serem de Minas; o fato é que a produção literária de ambos tem um valor inegavelmente universal e atemporal. Para ele, moda e literatura são dois gêneros artísticos que se preocupam essencialmente com a possibilidade de contar uma história.

Enquanto o mundo retratado pelo poeta é romântico e elegante, dando espaço a um figurino repleto de elementos delicados, a esfera de Rosa é árida, quase ‘clean’; desta forma, não há motivo para se produzir uma coleção preocupada com minúcias. A história retrata fielmente a paisagem sertaneja, despojada e estéril, porém simultaneamente exuberante, colorida e saturada de perfumes.
A Cobra: ri - Ronaldo Fraga
Desta forma, Ronaldo cria vestidos curtos que deixam os joelhos à mostra e abusam dos decotes. Como um reflexo da relação que se estabelece entre Riobaldo e Diadorim, o homem de Fraga é mais efêmero e delicado que a personagem feminina. Os tecidos remetem a texturas naturais, privilegiando o algodão, as malhas stonadas e a cambraia de seda. Nas estampas é fácil reconhecer as serpentes e as flores tão caras a Guimarães Rosa.
Por outro lado, escritores também se baseiam na moda para comporem seus livros; seja esta a protagonista ou apenas o pano de fundo, pode-se citar o figurino explícito de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, ou o conto de Scott Fitzgerald, Bernice corta o cabelo, no qual duas primas contrastam suas personalidades neste quesito; a mais descolada tenta informalmente passar umas dicas ‘fashion’ para a mais introvertida. Isso sem falar na chick-lit, o gênero literário especialmente dirigido às mulheres, no qual se pode inserir facilmente o já clássico O Diabo Veste Prada, de Lauren Weisberger, editado no Brasil pela Record.
O mercado editorial oferece ao leitor que se interessa por moda e literatura um vasto leque de opções, mesmo entre as obras não ficcionais, mas que primam pelo estilo literário e, assim, atingem facilmente seu público-alvo, tamanha a leveza e o fascínio que exercem sobre ele, como as obras de Gloria Kalil e o livro de Pascale Navarri, Moda & Inconsciente: olhar de uma psicanalista, um lançamento da Editora Senac.
Alice no País das Maravilhas
A escritora Sophia Bennett é a responsável por uma série que promete jogar mais lenha na fogueira da intensa relação entre moda e literatura, Linhas, publicada pela Intrínseca. A autora tece uma leve, porém profunda reflexão sobre o universo ‘fashion’ e suas implicações econômicas, sociais, políticas e éticas; tudo isso em uma saga divertida e sedutora, voltada particularmente aos jovens leitores.
Há muito que se dizer sobre este tema, mas vou parando por aqui, lembrando que este é um campo ainda pouco explorado, restrito a círculos ainda fechados, compostos por professores e estudantes de moda, trabalho particularmente executado na FMU, Faculdades Metropolitanas Unidas, a qual incentiva a criação de desfiles performáticos que percorrem justamente este circuito que integra Moda e Literatura.
Fontes:


terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Cinema - Indicação do Mês - Cisne Negro


 

Esta semana decidi contrariar uma antiga decisão minha de não assistir Cisne Negro, pois a maior parte dos comentários classificava o filme, no mínimo, como um terror psicológico, algo que eu preferia evitar neste momento. Mas uma forte intuição bateu e me levou ao cinema justamente para descobrir a história por mim mesma.
Foi com certeza uma das experiências mais malucas, assustadoras e fascinantes da minha vida. É ainda mais difícil narrar minhas impressões sobre o filme que permanecer na cadeira do cinema do início ao fim. Vou começar com as primeiras palavras que me vieram à mente no momento em que saí da sala: perturbador, desesperador, visceral e sublime.
A trama acompanha a montagem de um balé clássico, O Lago dos Cisnes, de Piotr Ilitch Tchaikovsky, por uma companhia que decide aposentar sua primeira bailarina, Beth, brilhantemente interpretada por Winona Ryder. A partir deste momento iniciam-se os testes para sua substituição. Esta é a oportunidade que Nina, a protagonista da história, uma atuação magistral de Natalie Portman, sempre desejou, e ela dá tudo de si para conquistar a vaga.
No momento em que ela é escolhida para interpretar a Rainha Cisne, a realização de seus sonhos, as pressões exercidas pelo coreógrafo Thomas e por sua mãe possessiva, uma ex-bailarina frustrada, vivida pela atriz Barbara Hershey, levam Nina ao limite de sua psique já perturbada, até atingir o ponto crucial onde todas as fronteiras entre realidade e imaginação, loucura e sanidade, são transpostas.
Talvez um dos elementos mais perturbadores deste filme seja seu ponto de vista, que transporta o público para o interior da mente atormentada e doentia de Nina; esta é a única versão da história, não há outras visões da mesma narrativa. Este ‘detalhe’ tem um impacto profundo sobre a plateia, ou pelo menos teve em mim, pois a partir de um determinado momento não conseguimos mais distinguir o que é real do que é mera alucinação.
Nina é a bailarina que busca a perfeição da técnica; ela é o Cisne Branco ideal, pois representa a inocência, a pureza e a doçura que a personalizam. Por outro lado, ela é radicalmente controlada, disciplinada e reprimida; mas Thomas a escolhe porque sabe que em algum ponto de sua alma está presente o Cisne Negro, símbolo da sexualidade, da sedução e do mal.
Enquanto no Lago dos Cisnes duas irmãs gêmeas disputam o príncipe que traz consigo a libertação de um feitiço que as mantêm cativas nos corpos de dois cisnes, o branco, que traduz a luz de uma, e o negro, que simboliza as sombras que habitam a alma da outra, as mesmas forças se confrontam no interior de Nina, que luta desesperadamente para permitir que sua face sombria se manifeste. A única forma que ela encontra de extravasar seus sentimentos é através da automutilação; quando seu corpo sangra, as emoções jorram de sua alma como se finalmente uma porta fosse aberta.
Ao mesmo tempo, ela entra em conflito com sua mãe, o que intensifica ainda mais seu desgaste psíquico, e passa a projetar seus medos mais primitivos em outra bailarina, Lily, interpretada por Mila Kunis, que se destaca como coadjuvante. Ela não tem uma técnica apurada, mas apresenta a naturalidade e a sensualidade que Nina mais deseja expressar. Quando as duas se aproximam, a mente da protagonista imediatamente a identifica como sua principal rival, na verdade uma personalização de sua sombra.
O que se vê na tela é a essência da arte, um jogo de sedução e fascinação, e cenas que beiram o mais profundo terror psicológico. Esta inusitada combinação provoca um impacto único e inesquecível no público, pois toca as profundezas do inconsciente humano, seus abismos mais sombrios, e prova que a alma humana é tecida por luzes e sombras. A trajetória de Nina atesta que é impossível qualquer possibilidade de crescimento emocional sadio quando esta esfera mental é simplesmente desprezada e reprimida.
O desfecho do filme é ainda mais impactante; ele nos prende, nos paralisa e rouba o nosso fôlego de tal forma que mal podemos respirar, literalmente.  A encenação do balé, principalmente a atuação do Cisne Negro, é tão sublime, que nenhuma palavra, por maior que seja sua magia, poderá descrever. É uma daquelas cenas que ficam gravadas para sempre na mente humana. Natalie Portman merece, com certeza, não só o Oscar de melhor atriz, mas todos os prêmios de melhor interpretação de 2010. Por mais difícil e angustiante que seja a experiência de assistir Cisne Negro, é impossível sentir qualquer vestígio de arrependimento quando o filme chega ao fim.
Observação: Anotem o nome do diretor, que, aliás, qualquer cinéfilo irá reconhecer: Darren Aronofsky. É ele o responsável por filmes como O Lutador, de 2008, muito celebrado pela crítica e pelo público; o menos festejado A Fonte da Vida, lançado em 2006; e os trabalhos antigos que lembram mais Cisne Negro: Pi (1998) e Requiem Para Um Sonho (2000).

Título Original: Black Swan 
Direção: Darren Aronofsky
Lançamento: EUA, 2010
Elenco: Natalie Portman, Mila Kunis, Winona Ryder, Vincent Cassel, Barbara Hershey.





terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Indicação - “Cidades Invisíveis” (Emili Rosales Castellá)


O catalão Emili Rosales Castellà é a grande revelação entre os autores contemporâneos europeus. Sua escrita segura, firme, fluente e poética tece com habilidade ímpar um mundo de sonhos e miragens que perseguem o protagonista desde sua infância. O escritor pode estar narrando suas próprias experiências através de seu altergo, mesclando ficção e realidade na trajetória de Emili Rossel, famoso galerista, marchand e amante das artes e da cultura. Mas, na verdade, não é imprescindível ter essa certeza.

Em sua obra "A Cidade Invisível", o autor retrata a busca da identidade de seus personagens principais. Nela se desenrolam duas histórias em tempos distintos, porém na mesma esfera espacial – a Catalunha do século XVIII e a atual. A história dentro da história corre paralela à trajetória de Emili, e encontramos nos dois heróis de suas respectivas épocas semelhanças marcantes, tanto nos ideais quanto em suas trajetórias, na procura de um sonho que, na verdade, representa a descoberta de si mesmos.

Emili cresce em meio às ruínas de uma cidade que não se concretizou, e que se torna para ele e os amigos uma obsessão. Neste recanto um tanto mágico ele realiza os principais achados de sua existência. Aí ele vive, durante a adolescência, os primeiros momentos de sua vida afetiva, que repercutem definitivamente em sua trajetória emocional. Durante algum tempo, longe de sua terra natal, Sant Carles, que ele passa a visitar apenas nos finais de semana, as imagens da Cidade Invisível se desvanecem, mas logo se reacendem quando, anos depois, Emili misteriosamente recebe pelo correio uma cópia do Memorial da Cidade Invisível, um manuscrito do século XVIII. Confuso, sem saber quem o enviou, ele inicia sua tradução, e mergulha de cabeça nas novas revelações que este documento enigmático lhe reserva.

Eu já não pensava mais na Cidade Invisível. Só em sonhos talvez. Até que, poucas semanas atrás, recebi um envelope sem remetente que continha a cópia de um longo documento manuscrito, cuja letra ondulada, elegante, com uma sucessão de curvas e traços estirados, logo me chamou a atenção. Ao fazer uma primeira e calma incursão por suas páginas — não estava acostumado com aquela caligrafia —, me dei conta de que se tratava de uma espécie de livro de memórias de um arquiteto do século XVIII, um tal de Andrea Roselli.

Estava escrito em italiano e levava um título que não se poderia assegurar que fosse da mesma mão que escreveu o restante do texto: Memorial da Cidade Invisível. Meu Deus, a Cidade Invisível! Imediatamente me lembrei da primeira vez que ouvi aquelas palavras, há muitos e muitos anos. Íamos brincar na Pedreira, aquela gigantesca cavidade aberta na colina que da serra de Montsià se debruça indecisa sobre o mar, na baía. Caminhávamos encolhidos entre as pedras e valetas de terra e parávamos em poças úmidas, esverdeadas, lamacentas, onde apanhávamos barro com as mãos e o transformávamos em figuras monstruosas. Por vezes alguém do grupo escorregava e seu casaco ficava que era uma lama só.

Neste memorial, encontramos a trajetória do arquiteto Andrea Roselli, e seguindo as pistas que ele proporciona tanto ao leitor quanto a Emili, estes se transportam ao século XVIII, e desvelam o passado da Cidade Invisível – os projetos do rei Carlos III de criar um núcleo urbanístico, centro comercial, artístico e cultural, a nova capital da Espanha, bem no âmago do reino catalão, no delta do Rio Ebro, completamente espelhada na cidade de São Petersburgo, criada também a partir do nada, e com os mesmos propósitos, na Rússia do czar Pedro, o Grande. O rei desejava, através da construção de sua Sant Carles, rever a Nápoles, a corte esclarecida que ele teve de abandonar para governar a Espanha.
Ao percorrer os caminhos de Andrea - seus sonhos, dilemas, conflitos, amores, desilusões e, principalmente, a busca de uma cidade que o abrigue, entre tantas que conheceu, de um lugar que seja seu -, Emili vai redescobrindo seu próprio passado, que para ele ainda guarda passagens obscuras e misteriosas, as quais ele não tem coragem de desvendar. A narrativa, envolvente e poética, seduz pouco a pouco o leitor, e lhe reserva passagens belíssimas, reflexões profundas sobre a existência, revelando-se assim uma obra de teor universal, com a qual nos identificamos, independente das diferenças culturais.

Andréa revela-se um personagem fascinante, à procura de seus sonhos e, ao mesmo tempo, acalentando o desejo de encontrar uma cidade que não passe mais como as outras que conheceu, diante da qual ele não precise mais partir. Mais que isso, ele aspira deixar em sua vida uma marca, algo que lhe permita não ser esquecido, transcender sua profunda solidão e a própria morte, conquistando de uma forma ou de outra, na arte ou no amor, a imortalidade. Emili também tem suas utopias, que por vários caminhos conduzem à Cidade Invisível – lá estão as respostas para os mistérios que o perseguem, seu futuro e seu passado, as tardes que ficaram para trás e as promessas de novos dias, a noite do tempo e as luzes que insistem em despertar, junto com as memórias adormecidas.

As figuras femininas são fundamentais nas veredas que Andréa e Emili percorrem. Cecília e Maria no século XVIII; Sofia e Ariadna no século XXI; elas iluminam e determinam os caminhos de ambos. De um lado, a exuberância, a beleza sofisticada, o gosto do proibido, dos perigos femininos; do outro, a simplicidade, a naturalidade, a espontaneidade, a pureza e a inocência. O autor ressalta em suas heroínas o poder do olhar, sua importância nos jogos de sedução e nos diálogos do amor, na leitura da alma de cada uma delas e na descoberta de histórias ocultas. Sabe-se que o olhar tem um significado profundo, tanto na mitologia quanto na filosofia, e o escritor sabe explorar muito bem essa potencialidade na caracterização de suas protagonistas.

Seja como for, de uma forma negativa ou positiva, essas mulheres influenciam e estimulam a busca de seus companheiros, impedindo-os de simplesmente esquecer o passado e seguir adiante. As memórias parecem ter um parentesco com o feminino nesta obra – aliás, é uma entidade feminina a responsável pelos caminhos da Memória, a deusa Mnemosyne -, e neste ponto destaca-se o papel de Ariadna, que, segundo a mitologia grega, era filha de Minos, rei de Creta, e de Pasífae. Ela se une a Teseu, ateniense inimigo de sua família, para destruir o Minotauro, encerrado pelo rei em um labirinto construído por Dédalo. Para ajudá-lo, ela lhe oferece uma espada mágica e um novelo de lã para que ele se guie dentro da construção labiríntica e, após enfrentar e matar o monstro, ele possa retornar e sair do labirinto. Abandonada posteriormente por Teseu, ela se casa com Baco, que ao encontrá-la desolada em uma ilha deserta, apaixona-se por ela.

Na leitura deste livro surpreendente, o leitor encontrará várias analogias entre a história mítica de Ariadna e Teseu e os caminhos reais percorridos pela heroína e Emili, uma narrativa de amor e abandono, ilusão e desilusão, encontros e desencontros. Na sucessão dos acontecimentos, o autor, através de sua Ariadna, tece os fios que conduzirão Emili de volta ao passado, não só ao tempo histórico, mas também ao encontro de sua identidade, das respostas que ele busca, mesmo sem perceber - sob a máscara do interesse pela História -, e que ele encontrará não através dos velhos caminhos conhecidos, mas sim tateando por novas veredas, muitas vezes sombrias e arriscadas, das quais ele não sairá ileso. Nas sombras do passado, porém, ele vê brotar a luz que poderá clarear não só o passado dos fatos históricos, mas igualmente os pontos obscuros de sua existência.

São tantos os fios que se desdobram ao longo da narrativa, que é surpreendente perceber, no final da leitura, como o autor consegue entretecer todos eles, com uma maestria sem precedentes, conciliando e conjugando as eras, revelando a verdade oculta na noite do tempo. Não é ocasional, portanto, este autor ter provocado surpresa e admiração entre os críticos, e esta obra ser vencedora do Saint Jordi, o prêmio mais importante da literatura contemporânea da Catalunha. Emili Rosales irrompeu no cenário literário com os livros de poemas Ciutats i mar (1989) e Els dies i tu (1991). Posteriormente ele publicou La casa de la platja (1995), Els amos del món (1997) e Mentre Barcelona dorm (1998). Na lista dos mais vendidos, este é um dos romances mais deslumbrantes dos tempos atuais, nos quais predominam best-sellers construídos sem muito esmero e carentes de preocupações estilísticas.


CIDADE INVISIVEL, A
Autor:  ROSALES, EMILI
Editora: NOVA FRONTEIRA
Assunto: LITERATURA ESTRANGEIRA-ROMANCES
ISBN :  8520919049
ISBN-13:  9798520919049
Livro em português
Brochura
1ª Edição - 2006 - 352 pág.

E em casa não voltei a falar da Cidade Invisível, embora com meus colegas continuasse encontrando indícios da sua existência, ou do seu desaparecimento. Com o tempo, aprendi que só existe o que se perde; sejam as cidades, os amores ou os pais. Um dia saímos andando pela praia em direção ao Sul, nos rochedos e grutas, desobedecendo às regras familiares e, remexendo debaixo de um monte denso de folhas de palmeira, atrás do emaranhado de galhos de uma figueira, descobrimos a boca de uma caverna, na qual não pudemos penetrar por mais de uns dez metros. Apesar disso, aquela era uma prova suficiente para termos certeza de que se tratava de uma outra saída da Cidade Invisível.