sábado, 23 de abril de 2011

Resenha - "Abascanto" (Diogo de Souza)

O autor afirma que escreveu este livro apenas para entreter o leitor e a si mesmo, mas acredito que ele foi bem além desse propósito inicial. Sua obra é uma parábola moderna sobre os descaminhos a que o ódio e o desejo extremo de vingança podem conduzir o ser humano, e uma apologia da tolerância e da liberdade de escolha.
Ele atinge seu objetivo ao mesclar pitadas de romance, muita ação, suspense, momentos eletrizantes, seres misteriosos e revelações que são dosadas gradualmente, muitas delas imprevisíveis, até mesmo para os leitores mais perceptivos. No prólogo já é possível perceber os rumos que determinarão a trama; aí já estão presentes os grigori, criaturas de outra dimensão, e os caídos, rebeldes que deixam a Eternidade para permanecer na Terra, com os mais diferentes propósitos.
- Você conhece as regras, Neberiah. Elas existem por um motivo. Não importa quantas pessoas você salve. Você está acabando justamente com o que quer salvar.
Neberiah gritou, quase desesperado:
- Mas eles vão se destruir!
Kaliel respondeu, plácida:
- É o direito deles.
Estes seres são como os anjos bíblicos, etéreos, diáfanos, pura energia. Os grigori seguem as regras cósmicas, as quais não permitem que o Homem tenha seu livre-arbítrio violado, mesmo que suas escolhas conduzam a Humanidade a sua própria destruição. Os caídos pensam de outra forma: alguns deles, como Sariel e Belial, que estão na Terra há sete mil anos, acreditam que o ser humano deve ser salvo de si mesmo, e para alcançar esse fim todos os meios são válidos.
No início da história três grigori se materializam em uma rua escura e deserta; é muito interessante acompanhar as distintas reações de Kaliel, Daqshael e Oriniel aos seus corpos e ao ambiente terreno. Logo depois eles já estão em pleno combate de espadas com seus oponentes, dois caídos, Neberiah e Azra, os quais são derrotados, embora Oriniel também seja abatido neste conflito.
Da luz, três corpos começaram a surgir. (...) Formados a partir do nada, criados naquele mesmo instante, três seres com a forma humana apareceram no meio da rua. (...) Não tinham nomes, uma vez que acabavam de surgir, mas eram indivíduos: de onde vinham, tinham identidades próprias. A cada identidade, a cada uma daquelas personalidades, correspondia uma vibração, e a cada vibração, um som. (...) ainda ligados a um mundo onde o tempo e o espaço quase não tinham significado.

Estas lutas se multiplicarão ao longo do livro; na verdade, apesar das vivas descrições destes embates, eles se tornam um pouco repetitivos no final do livro, talvez mesmo por conta da riqueza de detalhes, pois cada golpe dos adversários é descrito minuciosamente ao longo dos confrontos.

Vinte e três anos depois, Daqshael e Kaliel ainda estão na Terra, e aos poucos o leitor descobrirá o vínculo que os une aos protagonistas, Érico e Aline, Nephilins, filhos de um anjo e uma mortal, e irmãos gêmeos separados por inúmeras tramas do destino, orquestradas pela liberdade de escolha dos envolvidos nesta história.
Quando finalmente os irmãos se encontram, trágicos eventos os afastam novamente. Aline está casada com Sariel, o caído que deseja salvar a Humanidade por meio de sua destruição; Érico cruza o caminho deste ser exatamente quando ele mata o grigori que tenta impedi-lo de dar sequência a seus planos, e passa a ser perseguido pelo cunhado, o qual desconhece a ligação da esposa com a testemunha de suas ações.
Só naquele instante... Só ali ela percebeu o imenso vácuo de identidade que se preenchia. Vinte e três anos ela vivera sem saber de onde vinha, de quem descendia, o que tinha herdado. Vinte e três anos sob a sombra de pais que não a amaram o bastante. Vinte e três anos debaixo de uma história subliminar que nunca seria contada. Vinte e três anos nas trevas, e ela nunca havia percebido.
Para complicar ainda mais este inusitado contexto, Érico descobre que seu pai também é um grigori, e um passado desconhecido aflora diante de seus olhos, provocando em seu íntimo uma crise de identidade sem precedentes. O protagonista descobre também que nasceu com um ‘abascanto’ natural, ou seja, uma proteção contra os poderes que irradiam dos seres de outra dimensão; é por esta razão que somente ele pode testemunhar a morte do grigori.
Novos e trágicos eventos opõem radicalmente Érico e Sariel; o jovem se deixa dominar pelo ódio cego e por um avassalador desejo de vingança, sentimentos que cristalizam seu coração e se transformam em fantasmas a pairarem incessantemente sobre sua mente entorpecida pela ideia fixa de destruir o caído. Ele fica surdo a todos os apelos que o estimulam a perdoar para poder triunfar sobre os planos ambiciosos de seu adversário, e suas emoções conturbadas o conduzem a um caminho sem volta.
A tia pousou a mão no ombro dele. O toque algemou seu olhar ao dela.
- Érico. Eu acho que você deveria lidar com isso de outra forma, meu anjo. Encontrar em você a força para perdoar Sariel. Isso o colocaria muito acima dele. Isso, sim, iria libertá-lo. A vingança, Érico, só vai abrir outro buraco no seu espírito. Ela não preenche nada. Ela é só mais uma ilusão. (...) Eu vou te ajudar, Érico, porque, se você não for mais forte do que essa situação, se você cair no abismo da vingança, meu anjo, eu eu vou ter que estar do teu lado pra te dar a mão.
No final, o leitor com certeza sentirá falta dos personagens bem constituídos e do universo fascinante de Diogo; confesso que algumas passagens me surpreenderam demais, e chegaram até a me deixar abalada. Érico não se assemelha jamais aos heróis tradicionais; seus conflitos interiores, suas escolhas, medos, ações e sentimentos espelham os mesmos que nos movem em nossas jornadas existenciais. Aline também não é a garota frágil que aparenta ser; sua força interior emerge quando menos esperamos.
Este é o segundo livro de Diogo de Souza, já conhecido por Fuga de Rigel, um enredo inventivo que envolve seres paranormais e uma sociedade secreta. Autor independente, ele é uma surpresa no gênero fantástico da literatura nacional contemporânea. Sua inspiração para a concepção de Abascanto nasceu em 2003, mas somente em 2008 ele decidiu dar início a essa trajetória que concebe como um conto de fadas moderno.



terça-feira, 12 de abril de 2011

Resenha - "O Evangelho de Coco Chanel" (Karen Karbo)


O Evangelho de Coco Chanel é uma obra divertida, leve, bem-humorada e saborosa. A autora faz um resgate da trajetória e da filosofia existencial de Gabrielle Chanel, a estilista que revolucionou a história da moda, e a entretece com sua própria visão de mundo.
Coco Chanel é fruto de uma infância miserável, de perdas precoces, como a da mãe - vítima dos inúmeros partos, da fome e de uma vida sem perspectivas -, e do abandono paterno. A criadora do pretinho básico nasceu em 1883, num asilo para desabrigados em Saumur; este é o primeiro sinal das dificuldades iniciais da sua vida, as quais determinarão, sem dúvida, suas escolhas futuras e a personalidade determinada, dura e, às vezes, cruel.
Mesmo entre as órfãs, Gabrielle e suas irmãs eram párias. A maioria das meninas de Aubazine tinha uma família grande que podia pagar alguma coisa às freiras. As irmãs Chanel estavam entre as indigentes que não tinham família, ou cuja família era pobre demais para contribuir com alguma coisa, aquelas que comiam mingau aguado em mesa separada e dormiam em quartos sem aquecimento. Coco e suas irmãs eram a escória das meninas pobres.
Esta não é exatamente uma biografia de Chanel, mas uma exposição de facetas da estilista, enfocadas em doze capítulos autônomos, dos quais a autora extrai lições de vida – não se leia aqui autoajuda, pois não é exatamente essa a intenção de Karen – muitas vezes aplicadas, antes de tudo, a sua própria experiência cotidiana.
Algumas dessas pérolas são, com certeza, deliciosas, como a ideia de qualquer mulher pode ser duquesa, mas só há uma Chanel, com a qual a escritora justifica a recusa da estilista em se tornar simplesmente esposa. Sim, porque naquela época era impossível para alguém do gênero feminino conciliar o casamento e uma carreira profissional.
O primeiro tópico sobre Chanel discorre sobre o estilo; aqui Karen tenta definir o que é ser Chanel; a inventora da moda moderna libertou a mulher dos espartilhos, das armações de cabelos exigidas pelos chapéus da época, enfim, de tudo que a impedia de se sentir livre no seu dia-a-dia. Ela aliou elegância, conforto e simplicidade, adaptando figurinos masculinos ao corpo feminino.
O segundo tema se refere a um traço de caráter fundamental de Chanel, a autoinvenção. A estilista tinha uma inclinação nata à promoção pessoal; ela se envolvia em uma aura de mistério e era simplesmente impossível saber qual a verdade sobre seu passado; aliás, a estilista eliminou esse estágio de sua existência, reelaborou a história de sua infância, matou a Gabrielle real e criou uma nova Coco.
O primeiro ato consciente de rebelião de Chanel foi mentir. Ela mentia ou embelezava bastante as coisas na sua infância, rearranjando acontecimentos, inventando fatos e personagens, fazendo desaparecer os irmãos. Não tinha nenhum respeito por nada que não fosse criação dela e isso incluía a sua própria história. Tornou-se perita em espalhar informações erradas sobre a sua origem e sua família, e durante muito tempo ela conseguiu enganar o mundo inteiro.
Essa atitude foi vantajosa enquanto ela podia concentrar suas energias no tempo presente e nas oportunidades que pairavam a sua volta, construindo sua carreira a partir desta base temporal; mas foi negativa em sua velhice, quando o futuro já não existia e o presente tornava-se cada vez mais reduzido. Neste momento o passado teria sido um conforto para ela, se não tivesse sido sumariamente mutilado pela jovem Chanel.
Mas o problema é que à medida que se vai envelhecendo o passado começa a se acumular como a roupa no cesto de roupa suja de uma república de estudantes. O futuro encolhe, o passado aumenta e recusar-se a ter uma relação com ele é cortar nacos cada vez maiores de quem nós éramos e do que significou a vida.
Sua coragem e determinação estão presentes no quarto capítulo; estas virtudes nascem de alguém que conheceu logo cedo a dor e o sofrimento e, portanto, não tem nada a perder. Ela simplesmente se jogava nos empreendimentos que idealizava e se aproveitava de todos os recursos disponíveis no aqui e agora, com os quais ela teceu seu destino. É assim que Chanel conheceu o sucesso, com a máxima ousadia, o destemor diante de qualquer desafio.
Aliás, ela desconheceu os obstáculos, e passou por cima deles como um trator irritado, implacável, cínico e destemperado, fossem estes tropeços do caminho objetos, eventos ou pessoas. Desta forma, ela não se importou de colecionar rivais, e soube exatamente como ignorá-los, destituindo-os de qualquer importância.

Chanel nunca perdeu tempo com nada, dedicando seu precioso tesouro temporal ao trabalho e ao amor, com destaque para a produção incessante de suas coleções. Ela ia sempre direto ao ponto, não se dedicando jamais a fazer algo somente porque as outras pessoas o fazem. Coco sabia muito bem como ocupar cada momento da sua vida.
Talvez felizmente para Chanel a infância terrível, desesperada, tenha servido apenas para nutrir a sua inclinação para saltar antes de olhar, imaginando depois, durante a queda, que uso ela poderia dar às nuvens. (...) Se ela tinha uma inclinação para viver na sua própria época, era porque não havia bons tempos para lembrar. Sua ‘madeleine’ proustiana era uma detestável tigela de mingau servida na mesa de um orfanato sem aquecimento. (...) o tempo atual era sempre um tempo melhor de viver do que o passado. Essa atitude também serviu para fazê-la se sentir completamente moderna.
Karen Karbo é fã inveterada de Coco, mas não se pode acusá-la de ser totalmente parcial. Há escolhas de Chanel que nem mesmo ela pode justificar, por mais difícil que seja para a escritora admitir o lado sombrio da criadora do pretinho básico, principalmente quando ela escolhe virar as costas aos seus conterrâneos, durante a Segunda Guerra Mundial, fechando-se para o mundo e escolhendo ficar ao lado de seu amante nazista.
Será que alguma vez ocorreu a ela que se cientistas respeitados estavam sendo presos pelo chefe do seu amante, talvez fosse hora de admitir que ela havia agido descuidadamente e que era preciso se livrar dele? Estar com um nazista era melhor do que estar sozinha?
Muitos não a perdoam até hoje por esta atitude inexplicável e egoísta. Mas não se deve esquecer que boa parte das mulheres da alta sociedade francesa também abriu as portas de suas casas para festas regadas a oficiais alemães a serviço de Hitler. Coco só não sofreu o mesmo destino infeliz de suas companheiras, ao final da Grande Guerra, por intervenção de seu grande amigo Churchill.
Reflexões sobre Chanel estão entremeadas a meditações saborosas da própria autora; há passagens realmente brilhantes, e uma delas, incluída no tópico sobre o tempo, discorre sobre a nova raça de supermães “sexys, hiperférteis e confiantes”, quando Karen está tentando imaginar como seria a vida afetiva de Coco se ela tivesse nascido em 1963. Este livro com certeza merece ser lido e relido; deve estar sempre na mesinha de cabeceira de toda mulher – e, porque não, dos homens que desejam conhecer melhor o gênero feminino.
Uma nova raça de supermães sexys, hiperférteis, tranquilamente confiantes e ultra bem sucedidas que nos fazem sentir – a nós que temos um ou dois filhos e um emprego – pesos-leves multitarefa que vivem se queixando. Essa mulher é elegante, impulsiva, teve com um homem a quantidade de filhos suficiente para formar o seu próprio time de basquete, tem um marido sexy, bem-humorado, e uma casa bagunçada, feliz, caótica, povoada por uma ou duas babás, uma empregada e um cachorro excêntrico (...). Ela sempre tem uma aparência fabulosa, embora com os cabelos ligeiramente desalinhados, o que só aumenta o seu charme.
Karen Karbo é uma escritora norte-americana, nascida em Detroit, nos Estados Unidos. Ela já publicou três romances - Trespassers Welcome Here, The Diamond Lane, e Motherhood Made a Man Out of Me -, todos considerados excelentes pelo New York Times, e quatro livros de não ficção, entre os quais se destacam How to Hepburn e Stuff of Life.
Chesley McLaren é ilustradora de inúmeras obras e sua produção visual pode ser encontrada em diversas revistas como Town & Country, Vogue, InStyle e Elle. Seu traço, também impresso em seu trabalho como estilista, é considerado tão elegante quanto o das francesas.


Autora: KARBO, KAREN
Ilustrações: MCLAREN, CHESLEY
ISBN: 9788598903149
Assunto: BIOGRAFIA/MODA
216 Páginas;
Preço: R$ 29,90
Capa: BROCHURA
Editora: Seoman, 2010

sábado, 9 de abril de 2011

Ensaio - A Morte na Literatura de Vampiros

No mundo moderno pagamos um alto preço pela inovação tecnológica, pelo fluxo incessante de novidades, informações e modismos; enfim, por todas as "facilidades" do dia-a-dia. A violência gratuita e o circo dos horrores invade os noticiários e trazem com eles a presença constante da morte.

Por outro lado, essa personagem nunca foi tão negada e rejeitada como no universo em que vivemos. Por isso é tão importante que a literatura, principalmente a voltada para  o público infanto-juvenil, precocemente atingida pela morte, enfoque esta questão delicada e polêmica.

Neste espaço vou estar sempre postando textos sobre livros que, na minha opinião, tocam de forma mais ou menos explícita neste tema.



Anjo da Morte


À primeira vista parece surpreendente que a recente onda de vampiros na literatura faça tanto sucesso e conquiste um número cada vez maior de adeptos. Algo que chama a atenção, porém, nesta leitura, é a questão da presença consistente do que se entende por sobrenatural.

O mundo contemporâneo avançou, sem dúvida, no campo das descobertas científicas, do avanço tecnológico, das explicações racionais, da sociedade esclarecida e asséptica; o Homem parece caminhar na direção de um universo semelhante ao previsto pelo escritor Aldous Huxley, em sua obra Admirável Mundo Novo, no qual não há mais lugar para a dor, o sofrimento e a morte, sanados e exilados da vida humana através de pílulas desenvolvidas para esse fim.

Deste cosmos humano foi expulso também o encantamento, mas não sem um alto preço a se pagar por esta exclusão. Todas as eras e civilizações conviveram sem problemas com mitos, lendas, histórias e ‘causos folclóricos’; pode-se dizer que nossa era é uma exceção a esta regra implícita. Isto, sem dúvida, abala o emocional do ser humano, pois um elemento fundamental de sua psique está sendo extirpado gradualmente, com a ajuda do entorpecimento provocado pelo consumismo desenfreado.

Porém, nenhuma conquista tecnológica substitui o encanto mítico, a presença de uma esfera que transcende a realidade e ajuda o Homem a trabalhar suas emoções e, principalmente, suas perdas. Vivemos em uma sociedade que tenta, a todo custo, eliminar até mesmo a presença da morte, inevitável na jornada humana, e passa a acreditar que é indestrutível, eterna e imortal, ignorando inclusive a própria História - testemunha de impérios e civilizações que desmoronaram e jazem sepultadas há milênios, vítimas da passagem implacável do tempo.

Mas o ser humano necessita de uma dose de fantasia na sua existência, como defende, entre outros, o Professor Antonio Cândido. Daí o inegável sucesso das novelas e tramas cinematográficas, assim como da literatura. Por esta razão, talvez não seja tão assombroso o impacto provocado pela saga Crepúsculo, de Stephenie Meyer, e de outra série que consta nas listas dos mais vendidos, A Morada da Noite, de P. C. Cast e Kristin Cast, entre outras obras que têm como protagonistas os ancestrais vampiros.

Embora ela encontre adeptos em todas as faixas etárias e gêneros, é inegável que a maior parte dos leitores é composta por adolescentes. Este público é o que se encontra mais imune à alienação desencadeada pelos mecanismos que regem a era pós-moderna e, portanto, o mais acessível às questões existenciais, tão bem trabalhadas por estas autoras em seus livros.

Temas como a vida humana, o seu valor, a eternidade, a existência em um outro plano, e a morte, vista principalmente como um fator de transformação, não de finitude, são discutidos amplamente nestas obras. É curioso perceber que nem mesmo o vampiro é visto como um ser indestrutível e imortal nesta literatura; apesar de, em famílias adeptas de um vampirismo mais ‘clean’, ou seja, vegetariano, como na série Crepúsculo, eles viverem até mesmo por centenas de anos, esta entidade sobrenatural jamais é descrita como um ser destinado à eternidade.

Se até mesmo um vampiro, como Edward, de Crepúsculo, se preocupa com o destino de sua alma, acreditando que está condenado por ter se transformado nesta criatura, o que há de errado com o ser humano, que, em muitos casos, nem mesmo acredita que em seu interior habita uma essência semelhante a esta? È uma das questões que o adolescente pode, mesmo inconscientemente, despertar em sua mente.

E quanto à morte, tão presente nestes livros, principalmente em A Breve Segunda Vida de Bree Tanner, de Meyer, e nos volumes que compõem a Morada da Noite? Nesta série esta imagem é onipresente, pois nem todos os novatos marcados pela deusa Nyx para serem futuros vampiros passarão realmente pela transformação. Alguns deles não conseguem atravessar este limiar; mas, curioso, há vários tipos de morte, e nem todos os aspirantes a vamps morrem de verdade, e sim passam a viver em uma espécie de limbo, ou de semivida.

Na saga Morada da Noite os vampiros, ou seja, os que concretizaram a passagem, também não são definidos como seres imortais; alguns podem viver centenas de anos, outros encontram o fim da existência de forma precoce e violenta. Aqui, mais do que nos outros livros, é frisada a importância do livre-arbítrio concedido a cada ser, a escolha que pode determinar a luz ou as sombras, a redenção ou a destruição.

Em Academia de Vampiros a trama parte da experiência de perda de uma das personagens principais, Lissa Dragomir, uma vampira que viu sua família morrer em um acidente no qual apenas ela e sua melhor amiga, Rose Hathaway, sobreviveram. Sua estrutura emocional fica definitivamente marcada pela partida de seus pais e do irmão que ela idolatrava.

Mas é na saga Mundo das Sombras que a morte, pelo menos no primeiro livro, O Vampiro Secreto, está ainda mais presente. Ela é praticamente a protagonista da história, pois é abordada de forma profunda pela autora, L. J. Smith. Esse momento único da existência humana é enfocado com delicadeza e sabedoria; é esta passagem para o desconhecido que leva Poppy a se transformar em uma vampira.

Questões como estas, e outras tantas presentes na literatura de vampiros, preenchem, pelo menos parcialmente, a carência do ser humano, que desconhece, hoje, o significado da vida e da morte, as implicações das decisões adotadas por cada um, os valores morais, a importância dos mitos e do sobrenatural na compreensão da própria trajetória humana.

É preciso, porém, um trabalho mais profundo em torno destes temas, por meio de educadores e outros pensadores, em um esforço interdisciplinar e inter-religioso, no sentido de orientar os leitores destes livros na compreensão do potencial oculto nas suas entrelinhas, com o objetivo de resgatar o encantamento de outras eras e a própria imagem da morte, em sua antiga face de fenômeno natural. Talvez, assim, o Homem consiga eliminar um mal maior, a violência, comum, principalmente, entre esses mesmos adolescentes.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Lançamento: "Jogo de Poder" (Valerie Plame Wilson)

Oi pessoal! Aqui está um superlançamento da Editora Cultrix/Seoman: Jogos de Poder. Em breve estarei postando a resenha por aqui. Por enquanto, segue a sinopse.



Recentemente estreou no Brasil o filme Jogo de Poder, protagonizado por Naomi Watts e Sean Penn, baseado no livro desenvolvido por Valerie Plame Wilson, ex-agente da CIA. Alguns leitores devem se lembrar, ao menos vagamente, do escândalo que envolveu a invasão ao Iraque, comandada pelo presidente George Bush, a pretexto de impedir a aquisição massiva de armas nucleares pelo Estado iraquiano.
Nesta época Valerie era uma prestigiada e competente agente do serviço secreto norte-americano; seu currículo era irretocável após 18 anos de trabalho junto à CIA; ela atuava como espiã na esfera da inteligência, quando descobriu que o país invadido era inocente da acusação forjada pelo governo dos Estados Unidos. Ou seja, os iraquianos não estavam propagando armamentos nucleares de grande porte.
Ao mesmo tempo o diplomata Joseph Wilson, seu marido, viaja para o continente Africano a serviço de seu país e ratifica a teoria de sua esposa, publicando um artigo sobre suas descobertas no jornal New York Times. Esta iniciativa desencadeia uma série de traições e maquinações políticas.
Em meio a este jogo poderoso, a identidade supersecreta de Valerie é revelada na mídia, o que compromete seu relacionamento conjugal, seu escudo protetor, a segurança de seus familiares e a de suas fontes em outros países. Logo em seguida a agente é dispensada de seus serviços e, indignada com a situação, decide compor uma obra na qual ela possa denunciar a realidade dos fatos.
Mas, como qualquer agente que trabalhou na CIA, ela tem que entregar os originais ao departamento de censura. Após uma luta judicial que se estendeu por vários anos, Valerie triunfou parcialmente e publicou seu livro, o qual traz em suas páginas várias tarjas pretas que denunciam os cortes impostos pela CIA. Este artifício permite ao leitor ter pelo menos indícios de eventos, datas e lugares que tanto a agência secreta quanto a Casa Branca preferem ocultar.
No posfácio elaborado pela jornalista Laura Rozen é possível encontrar dados fundamentados em entrevistas e em contatos públicos; desta forma torna-se mais acessível o contexto histórico e o leitor pode comprovar o extremo profissionalismo e o caráter da ex-agente secreta. O livro já se tornou um sucesso de vendas nos Estados Unidos.
Valerie Plame Wilson é ex-agente secreta da CIA e, depois da tempestade que atravessou sua vida, reside hoje em Santa Fé, no Novo México, nos Estados Unidos. Atualmente ela ministra diversas palestras, direcionadas aos mais distintos públicos; apesar de estar desiludida com seu país, ela ainda encontra forças para estimular a juventude a trabalhar junto ao governo norte-americano, para que, assim, possam modificar os caminhos impostos pelas autoridades constituídas.
 Vale a leitura, não acham?

Autora: Valerie Plame Wilson
ISBN: 978-85-98903-25-5
Assunto: Biografia
440 Páginas;
Preço: em definição
Capa: brochura;
Formato: 16,0 cm x 23,0 cm              
Editora Seoman, 2011



quarta-feira, 30 de março de 2011

Resenha - "O Garoto da Casa ao Lado" (Irene Sabatini)

Esta obra é a mais poética, arrebatadora e dolorosa visão sobre o processo de amadurecimento do Zimbábue, país africano colonizado pelos ingleses no século XIX, após a descoberta de ouro em suas terras. O pioneiro Cecil Rhodes, que investiu no desenvolvimento desta nação, inspirou seu nome antigo, Rodésia, que permaneceu em voga até a conquista da independência, em 1980.
Convivem neste território os ancestrais shonas, de procedência banto, e os ndebele, de naturalidade zulu, que desembarcaram neste país no século XIX. Há também os rhodies, brancos africanos. É neste contexto que se desenrola a história de amor e a maturação emocional de dois jovens zimbabuanos, Lindiwe e Ian.
Mamãe, papai, Rosanna e eu tinhamos assistido à Cerimônia de Independência na televisão, há mais de dois anos. O Príncipe Charles parecia meio triste quando lhe deram a bandeira britânica; tinha a boca muito firme, como se estivesse fazendo força para não chorar, para não envergonhar a Rainha. Em toda a semana anterior, o Herald fizera uma lista das beldades zimbabuanas brancas que seriam noivas perfeitas para o príncipe.
A autora enfoca o relacionamento entre a garota negra, que acaba de completar 14 anos, e o jovem branco, de 17 anos, acusado de matar sua madrasta ao incendiar seu corpo. Tudo acontece na casa ao lado da que a família de Lindiwe reside. Este evento marca não só a cidade de Bulawayo, mas também a vida destes adolescentes, que estão apenas iniciando sua trajetória existencial.
Aos poucos seus passos convergem para as mesmas trilhas, seus corações passam a balançar no mesmo compasso, apesar de todas as diferenças étnicas, sociais e comportamentais. Eles pertencem a mundos distintos, mas nada os impede de mergulhar em uma paixão proibida, que pode virar suas vidas de cabeça para baixo.
Enquanto falava, eu pensava que não se parecia com nenhum dos brancos que eu já tinha visto em Bulawayo. Tentei descobrir se eu sentia isso apenas porque estava começando a conhecê-lo. Se eu não o conhecesse, se o visse nas ruas, será que pensaria "ah, olha ali um rhodie, saudosista da Rodésia"? Tentei refletir sobre o que o tornava diferente para mim, o que eu gostava nele; quis fazer uma lista na minha cabeça. Mas era difícil fazer uma lista, pois eu parecia voltar sempre a um só ponto: ele é Ian, o garoto da casa ao lado, a pessoa que estou começando a conhecer.
Ian McKenzie provém de um ambiente familiar conturbado. Ele foi supostamente abandonado pela mãe aos 6 anos e logo cedo teve que aprender a conviver com a brutalidade e o alcoolismo de seu pai, um veterano de guerra, e com uma madrasta que lhe impunha terríveis humilhações, além de levar sempre um amante novo para casa na ausência do marido.
Lindiwe Bishop também é filha única; seu pai era pardo, mas orgulhoso de sua origem racial; ele trabalhava nos Correios, no setor de telecomunicações, e ocultava terríveis segredos sobre sua participação nos confrontos pela Independência do país. Sua mãe, negra, mas preocupada em agradar os brancos, refugiava-se na Igreja e obrigava sua filha a agir como as crianças rhodies.
Minha escola nova era outrora uma Escola Grau A, exclusiva para brancos. Eu passara por uma prova de ingresso. Papai torceu a boca; não gostava quando mamãe falava em pardos e negros. Ainda que todos o classificassem como pardo (ele tinha pele clara, cabelo bom e nariz reto), ele não se via assim. (...) Tinha orgulho da mãe, que o criara em Nyamandhlovu. Seu pai era um fazendeiro branco que concordara em colocar seu nome na certidão de nascimento e pagara por seus estudos.
Apesar de todas as impossibilidades, os caminhos de Ian e Lindiwe estão sempre se cruzando, mesmo depois do tempo em que permanecem distantes, quando seus destinos parecem navegar por águas totalmente distintas. A intensidade do sentimento que os une, porém, transcende desafios e obstáculos, sejam eles pessoais ou emergentes do panorama político-social, indissociável dos problemas raciais e existenciais de cada zimbabuano.
Além dos protagonistas, a narrativa é povoada por personagens inesquecíveis, como o guerreiro Maphosa; a doce Rosanna; a sensual Bridgette; e, do lado sombrio, Robert Mugabe, chamado ironicamente de Bob por seus adversários, que subiu ao poder em 1980 como líder socialista, permaneceu como presidente e ainda continua no comando do país, após diversas eleições controvertidas.

Residência em Bulawayo

E aí vai, aí vai o nosso querido presidente e intrépido primeiro viajante (o Vasco da Gama africano, partindo para descobrir mundos perdidos, como o definiu gloriosamente o secretário-geral do centro acadêmico), trajando as mais finas vestimentas, alegre e entusiasmado como um garotinho de escola. Realmente, por que não? Uma vida de serviço aos outros deve certamente, certamente, ser recompensada um dia. Nada mais justo.
Nesta história rica em informações históricas e culturais, entretecida por uma linguagem em alguns momentos poética, e em outros instantes crua e assustadora, a autora se espelha na protagonista. Ela também cresceu em Bulawayo, consumindo vorazmente os livros da biblioteca pública local; foi igualmente para a Universidade e se deixou seduzir pelo fascínio de outras culturas e experiências.
Seus personagens são tão nítidos, suas trajetórias tão vívidas, que chegamos a acreditar na sua real existência, tão tangível como a história de seu país. Ian e Lindiwe representam, talvez, o futuro de uma nação que ainda não se concretizou; eles são frutos da mente inventiva e esperançosa de uma zimbabuana que acredita em seu país, apesar de toda a destruição que testemunhou.
"As pessoas estão desesperadas", repetem todos. As pessoas estão desesperadas. Estamos seguindo rapidamente pelo caminho da África do Sul. Sequestros e coisas assim. Os jovens veem todos aqueles Pajeros e também querem enriquecer rápido. Veem a corrupção e o roubo entre os mais velhos, então por que não eles? Por que têm de morrer de fome, sacrificar-se, ser panacas como seus pais? Por que têm que ficar para trás? Não. Sem chance. Vão botar as mãos no que desejam, rapidinho. Se o governo não lhes arruma empregos, vão se virar por conta própria.
Não posso também deixar de mencionar que um dos personagens principais deste livro é a memória; são seus fios que conduzem o leitor através das lembranças de Irene Sabatini; elas são praticamente convertidas em cenas cinematográficas na nossa mente, tamanha a riqueza de detalhes presente nas descrições do Zimbábue recém-independente e na revelação de sua profunda decadência posterior.
Irene Sabatini decidiu se aventurar por outros países após concluir os estudos universitários; escolheu a Colômbia, pela profunda sintonia com sua cultura. Foi aí, ao meditar em um antigo monastério dominicano, que lhe veio a inspiração deste livro, seu primeiro romance, premiado com o Orange Award 2010 na categoria autora revelação.

Autor:  SABATINI, IRENE

Editora: NOVA FRONTEIRA
Assunto: LITERATURA ESTRANGEIRA - DRAMA
ISBN: 9788520922354

Origem: NACIONAL
Ano: 2011
Edição: 1
Número de Páginas: 411
Acabamento: BROCHURA

sábado, 26 de março de 2011

Estátuas de Sal (André Cardinali)

Este é um dos livros mais marcantes, perturbadores e surpreendentes que já li. Quando iniciei sua leitura, que por si só já é uma jornada existencial de autoconhecimento, descobertas e transformações, não poderia jamais imaginar que cada página me levaria de um mergulho completo nas sombras até um novo despertar.
Assim, o leitor mais atento pode se tornar a companhia ideal de Alice, a protagonista, em sua viagem ao encontro de si mesma e das respostas que tanto busca; eles poderão seguir juntos e compartilhar cada questionamento, dúvida, reflexão, confusão e angústia.

Nos outros bancos, pessoas rezavam fervorosamente para agradecer, pedir auxílio, achar conforto... Deus atendia suas preces, disso eles tinham certeza, mas nem sempre era como eles queriam, porque Ele sabe o que é melhor para todo mundo e, às vezes - e a Aliança no altar lembrava isso -, era preciso agir duramente com os humanos para que eles entendessem. Bom, isso era o que ela costumava pensar.
O prólogo do livro indica uma trama eletrizante e nos leva a alimentar vastas expectativas relativas ao desdobramento da história. Mas quem espera por uma sequência ininterrupta de ação e suspense acaba se decepcionando no início da narrativa, que se passa mais no interior de Alice. Esta etapa, porém, é fundamental para o desenvolvimento do enredo, e exige uma boa dose de atenção e concentração.
É neste momento que o autor apresenta sua personagem, talvez uma espécie de alterego, por meio da qual ele mesmo revela sua visão sobre Deus, ou melhor, a evolução de seu ponto de vista. Á medida que os dilemas interiores de Alice se tornam familiares, nos convidando, muitas vezes, a partilhar de suas indagações e questões, a trama vai adquirindo outras tonalidades e conquistando outros rumos. Quando o leitor se dá conta, já está totalmente envolvido e não consegue mais se desligar da história.

Nascemos para nos encontrar com ele e viver em Sua Paz eternamente, após a morte. (...) Entretanto, a questão continua a se aplicar: por quê? Por que um ser Onipotente, Onisciente e Onipresente precisaria de seres inferiores como nós? Para fazer o quê? A pergunta ficava no ar, naquele ar pesado, preso no apartamento há dias e que zanzava pelos cômodos, sem se reciclar, já que nenhuma janela ou porta havia sido aberta.
Há dez anos a cidade de São Paulo, considerada o centro do pecado e da corrupção, das sombras e do desprezo aos ensinamentos do Criador, foi destruída, supostamente por um Deus colérico que se volta contra suas criaturas quando perde as esperanças com relação à Humanidade.
Alice perde a mãe nesta tragédia que se abateu sobre uma das maiores metrópoles do Planeta, e agora seu pai também está morto, e tudo indica que ele cometeu o suicídio. A jovem, porém, não consegue acreditar nesta versão. Após permanecer algum tempo isolada em seu apartamento, sem forças para continuar a viver, ela decide sair em busca de respostas. Não só em relação à morte de Alberto Villela, mas também e talvez principalmente no que diz respeito a Deus e ao que ela considera Sua máxima traição.

Estátuas de sal, lembrava-se da expressão. Ela designava um suicídio em massa. Desde o incidente em São Paulo, muitas pessoas se suicidaram nas cidades que faziam fronteira com a antiga capital. Em todos os casos, os suicidas deixaram cartas (...) Algumas cartas ainda chegavam a atacar Deus, discordando de sua atitude de destruir a cidade, afirmando que "não fazia sentido". (...) O nome era uma referência à mulher do profeta Ló da história de Sodoma. (...) A mulher, no entanto, no momento da destruição da cidade, virou-se e transformou-se em uma estátua de sal.
Para continuar viva, a protagonista precisa encontrar o sentido da existência, agora que o Criador decidiu aniquilar seus filhos; afinal, porque Ele os criaria para logo depois destruí-los? Ao receber uma enigmática correspondência, ela segue as pistas nela contidas e inicia uma jornada que a conduz até as ruínas de São Paulo, na qual a entrada de qualquer ser vivo foi proibida após o evento apocalíptico que a atingiu.

Da morte, da destruição, surgia a vida. Não era assim no mundo inteiro, desde o começo? O ciclo da vida e da morte. Os átomos que compunham o corpo de Alice já compuseram uma árvore, um animal, outra pessoa. A própria alimentação já representava esse ciclo. Matar para viver, mesmo que fosse tirar a vida de um vegetal. Morte e vida se completam, pensou. São lados da mesma moeda. Um não existe sem o outro.
Nestes dias sombrios em que estamos mergulhados, esta é com certeza uma leitura indispensável. Ao longo do caminho o autor transmite, por meio de enigmas e inusitadas profecias, profundas reflexões sobre a Divindade, tolerância religiosa, o Demônio, o bem e o mal, a vida e a morte, entre outras tantas questões que afligem a alma humana.
André Cardinali é certamente um jovem atípico. Com apenas 23 anos ele já escreveu quatro romances, é graduado em Rádio e TV, atua como roteirista, repórter, compositor e escritor. Nascido em Piracicaba, no interior de São Paulo, aos 7 anos ele já surpreendia a professora de Português com suas redações. Estátuas de Sal é sua primeira publicação, uma iniciativa da Editora Novo Século, que dedica um de seus selos editoriais aos novos talentos brasileiros.


Autor:  CARDINALI, ANDRÉ
Editora: NOVO SÉCULO
Assunto: LITERATURA NACIONAL - DRAMA
ISBN: 9788576793755
Origem: NACIONAL
Ano: 2010
Edição: 1
Número de Páginas: 296
Acabamento: BROCHURA

sexta-feira, 11 de março de 2011

Indicação - Educação e Espiritualidade - Interfaces e Perspectivas (Dora Incontri, org.)


 

Nesta obra a principal preocupação é a reflexão sobre o diálogo interreligioso, praticado a partir das salas de aula, no interior de um planejamento interdisciplinar e pluralista. Várias linhas educacionais são apresentadas em suas páginas, e mesmo as propostas mais modernas estão fundamentadas nas sólidas bases implementadas por educadores como Comenius, Janusz Korczak, Pestalozzi e Allan Kardec, seu discípulo.

Os organizadores deste volume reservam um espaço para a manifestação de cada vertente religiosa significativa do mundo contemporâneo, permitindo que seus representantes esbocem sua visão de uma pedagogia multidisciplinar que propicie ao aluno a aquisição de valores morais imprescindíveis, sem que um corpo doutrinário lhe seja imposto. Este caminho conduz ao estabelecimento da tolerância e à aceitação das diferenças.

No texto Educação e Espiritualidade - quando, como e porquê -, da educadora e organizadora deste livro, Dora Incontri, em parceria com o pedagogo Alessandro César Bigheto, os autores fazem um levantamento histórico do ensino religioso nas escolas, da interação entre educação e religião, dos abusos das religiões institucionais, passando pela separação entre o laico e o sagrado, até atingir outra posição radical, a do extremismo materialista, nada isento de implicações ideológicas. No mesmo artigo eles propõem um olhar de síntese, que transcende o fanatismo religioso e também a postura cética e pessimista dos materialistas, a partir da análise das teorias de Pestalozzi, Kardec e Erich Fromm.

A tentativa democrática ocidental dos últimos séculos de separar o Estado da religião, e com isso fazer uma educação pública, laica, afastada do domínio religioso, justifica-se como reação histórica à repressão secular das igrejas, à imposição religiosa que povos inteiros sofreram.
Entretanto, como em todo processo dialético, em reação a determinado extremismo, surge outro extremismo, às vezes tão intolerante quanto aquele que se quis contestar.

Laura Lippman e Hugh McIntosh expõem em seu ensaio o índice de incidência da espiritualidade e da religiosidade entre os jovens nos Estados Unidos. A pesquisadora do tema Educação Religiosa, Marian de Souza, discorre sobre a carência de paixão e entusiasmo nas aulas de religião e apresenta um modelo curricular enraizado em um aprendizado holístico, veiculado a partir de um vínculo profundo entre percepção, pensamento, sentimento e intuição, por meio do qual o ser vivencia o mundo.

O filósofo e educador Regis de Morais é o responsável por um dos mais belos textos que compõem esta obra – Deus, a Ciência e a Educação -, no qual ele se baseia no pedagogo espírita José Herculano Pires. O autor aborda com leveza e delicada veia poética a controvertida relação entre Deus, a Ciência e a Educação. Entre as várias passagens profundas e inesquecíveis, ele defende a prática da coragem humilde para a reconstrução da realidade educacional.

Herculano Pires demontra-nos que mil manobras sombrias foram empregadas, pelos milênios, pelo fanatismo religioso e pelos interesses político-institucionais para "a salvação da Humanidade", e tudo isso trouxe a um tempo de hipocrisias religiosas e morais e de ressentido materialismo.

A professora Ana Szpiczkowski é a produtora de outro artigo contagiante, que discorre sobre a vida e a atuação do educador polonês Janusz Korczak, que legou à Humanidade seu trabalho educacional único junto aos pequenos órfãos, através do qual ele desenvolveu um sistema de autogestão social. Judeu em plena era de perseguição nazista, ele optou por morrer ao lado de suas crianças no campo de Treblinka.
Em Diálogos entre o Oriente e o Ocidente o Doutor em Ciências da Religião, André Andrade Pereira, ressalta a importância de uma interação entre as religiões orientais e as ocidentais nas escolas, especialmente através da prática da meditação. Alexandre Leone é o representante da vertente judaica, e seu discurso se baseia na mística de Abraham J. Heschel, a qual contribui para a constituição de uma filosofia da espiritualidade judaica contemporânea.

Os demais textos que compõem a segunda parte desta obra, Educação e Espiritualidade, apresentam a visão católica – Luiz Jean Lauand realiza um esboço filosófico da construção do Catolicismo, destacando a importância de Tomás de Aquino; o ponto de vista budista, defendido por Tiago Pires Tatton Ramos, que cria uma aproximação entre o budismo, algumas vertentes psicoterápicas e o pensamento de determinados educadores, como Rubem Alves.

As tradições africanas também ganham um espaço importante neste livro, graças ao ensaio esclarecedor e fascinante do doutor em Ciências da Comunicação Juarez Tadeu de Paula Xavier, que realiza um estudo da oralidade africana através da análise bem-estruturada da cultura iorubá. Alysson Leandro Mascaro conclui esta esfera principal da obra com sua investigação inusitada dos laços que conectam religião e política, a partir dos quais ele produz sua visão da filosofia espírita.

O legado sagrado da palavra confere à humanidade a capacidade de criação. As palavras arquitetam cenários. Elas guardam uma dimensão mágica que faz vibrar todas as partes do universo. (...) Com essa vibração como eco de fundo é que se deve pensar a importância dos tradicionalistas em manter a autenticidade da transmissão oral.

Platão
A terceira parte deste livro abriga os textos que discorrem sobre Reencarnação e Educação. Daniel Donnet é o autor de dois ensaios iluminadores sobre esta temática; no primeiro ele aborda as filosofias indianas para localizar, no âmago deste pensamento, o papel do ego; no segundo, o Doutor em Filosofia e Letras se preocupa mais com as teorias tecidas pelos gregos antigos, passando pelo Orfismo, por Pitágoras e Empédocles, chegando a Platão, aos primeiros momentos do Cristianismo e finalmente à era romana. Alessandro Bigheto também se atém aos ensinamentos de Platão, que remetem à reencarnação e aos processos educacionais.

Figuram nesta divisão, igualmente, textos mais específicos, como os que narram o mecanismo de renascimento entre os trobriandeses, sociedade de natureza matrilinear, e os budistas; e casos de crianças portadoras de memórias passadas, especialmente no Sul e Sudeste da Ásia, no oeste asiático e africano, no Brasil e no noroeste da América do Norte. Ian Stevenson, um dos principais estudiosos do tema, também realiza suas incursões nesta esfera das existências passadas. Dora Incontri finaliza esta obra com sua exposição pessoal de um projeto de Pedagogia Espírita para as escolas brasileiras.

No Ménon (81b-d), por outro lado, Platão postula a pré-existência da alma em vidas anteriores para explicar sua capacidade de conhecimento:

Como a alma é imortal e veio várias vezes ao nascimento, e viu todas as coisas tanto aqui neste mundo quanto no Hades, fica excluído que ela não tenha aprendido nada. Não é, portanto, surpreendente que a respeito da virtude e de outras realidades, ela possa se lembrar daquilo que ela sabia anteriormente.

Deixei para o final a primeira parte porque ela reserva um cantinho especial para o tema Saúde e Espiritualidade, composto por três artigos. O primeiro, assinado pelo doutor em Medicina e Psiquiatria C. Robert Cloninger, pela psicóloga Ada Zohar e pelo educador Kevin Cloninger, fala sobre os cuidados com a saúde mental e as deficiências no quesito de promoção do bem-estar. O segundo, elaborado pelos psiquiatras André Stroppa e Alexander Moreira-Almeida, expõe os resultados de pesquisas sobre como a espiritualidade do paciente influencia as condições de sua saúde e a própria cura. O terceiro é o relato do processo de gestação do ProSER - Programa de Saúde, Espiritualidade e Religiosidade – no interior do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, elaborado pelo médico psiquiatra Frederico Camelo Leão.

Dora Incontri, organizadora deste volume, é jornalista, mestre, doutora e pós-doutora em Filosofia da Educação pela USP, diretora da Editora Comenius, coordenadora geral da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita e da pós-graduação de Pedagogia Espírita pela Universidade Santa Cecília e pelas Faculdades Integradas Espíritas.

Promoções

Oi leitores do Prosa Encantada!

Em breve estarei sorteando os primeiros livros neste blog.

Por enquanto pretendo conquistar a atenção de vocês com a minha paixão pelos livros, algo que temos em comum, certo?

Mas quem ler e comentar meus textos e seguir o blog já estará acumulando pontos para concorrer aos brindes. Portanto, não fique para trás, amplie suas oportunidades de ser sorteado. Aguardo vocês aqui no Prosa Encantada.

Resenha - "Linhas" (Sophia Bennett)


 
Se alguém espera encontrar aqui apenas mais um produto do gênero chick-lit, uma obra voltada somente para mulherzinhas, está enganado. Embora a princípio este livro realmente pareça navegar nesta direção, logo o leitor percebe que está diante de uma história completamente diferente, na qual nada parece ser o que é.

As protagonistas são aparentemente três adolescentes comuns, com sonhos, desejos, questões típicas da idade; por outro lado, porém, elas já definiram seus caminhos profissionais. Nonie, filha de uma ex-modelo e neta de uma fiel adepta da alta-costura, é apaixonada por moda, mas não sabe desenhar, nem tem o corpo apropriado para seguir os passos da mãe.

No caminho para o metrô, dois sujeitos de jaqueta e calças jeans encardidas berram do outro lado da rua:
- Esquisitona!
- Se enxerga, perna prateada!
Eddie passa um braço pelos meus ombros, de maneira protetora. Jenny segura minha mão. Mas eu estou acostumada com isso, não me importo mais. Se algum megadeus da moda debochar do jeito como eu me visto, talvez eu até fique ligeiramente abalada, mas caras vestindo jeans da cabeça aos pés não estão lá em posição de me criticar.

Jenny é uma ótima intérprete teatral, mas subitamente tem a oportunidade de iniciar uma carreira cinematográfica em Hollywood, a Meca dos astros e estrelas, com os quais irá conviver e contracenar nos tapetes vermelhos e sob os holofotes da mídia especializada. O problema é que isso acontece justamente quando seu corpo passa pelas terríveis transformações da adolescência, as fatídicas espinhas, os seios que crescem demais e o tão temido aumento do peso.

Edie é a garota que não se interessa tanto quanto as amigas pelas ‘futilidades’ da vida; seu passatempo, com certeza, não é percorrer alucinadamente as vitrines das lojas, como Nonie, que a inveja por ela ter um corpo de modelo, oculto sob roupas clássicas e convencionais. Seu sonho é ser um membro das Nações Unidas e transformar o Planeta; ela mantém um blog, pois tem a incrível necessidade de compartilhar suas ideias e tudo que sabe sobre as amigas, e nele divulga todas as causas que abraça.

A vida das amigas se modifica radicalmente quando elas conhecem Crow, uma menina de 12 anos, refugiada da Uganda, enviada por sua família para Londres não só com o objetivo de ter melhores oportunidades intelectuais, mas principalmente por razões políticas; é sua única chance de se manter viva. Dotada de um talento precoce e inacreditável para a moda, ela encontra neste universo um refúgio de suas tristezas e uma forma de tentar esquecer o passado. Quando seus caminhos se cruzam, nada será mais como antes.

Mas Crow vem do norte, perto do Sudão, e ali é tudo bem diferente. Há muitos anos o governo combate um grupo de rebeldes chamado Exército da Resistência do Senhor. Os rebeldes se escondem na mata e usam crianças para o combate. (...) As meninas eram obrigadas a ter filhos com os soldados. Por isso, as crianças que moravam nesses vilarejos distantes costumavam caminhar quilômetros e quilômetros todas as tardes até encontrar um lugar seguro em alguma cidade, onde houvesse gente capaz de protegê-las. (...) Eram chamadas de "os andarilhos da noite".
- E Crow era uma delas?

A história é narrada do ponto de vista de Nonie, a qual surpreende o leitor ao revelar ser muito mais que uma garota fútil e superficial. Ela é, com certeza, o alterego da autora, que aproveita este enredo para aliar suas duas paixões: a literatura e a moda. Além do mais, Sophia Bennett se vale de Crow para denunciar a triste realidade das crianças invisíveis da Uganda; Edie representa, nesta obra, a voz que se eleva em defesa desta infância perdida da África.

A autora consegue unir, nesta série que promete abalar não só o universo fashion, mas também um público mais eclético, uma história leve e ao mesmo tempo densa, engraçada, porém igualmente triste. Todos os ingredientes são mesclados nas proporções corretas, e o resultado é um livro original, saboroso e fluente, no qual não faltam nem mesmo doses de um suspense eletrizante. No final resta aquele desejo de já emendar a leitura do segundo volume. Tomara que a sequência seja logo publicada!

A máquina de costura preta está instalada na mesa de trabalho. As roupas prontas já estão na arara e nos cabideiros. Suas criações e inspirações favoritas estão em uma pilha alta de papel, prontas para ser presas com alfinetes em enormes murais nas paredes. Um vestido quase terminado veste o boneco. Moldes de papel cobrem a cama e o chão. Quando apareço para ver se está tudo bem, ela não consegue evitar um sorriso.

Sophia Bennett tinha um sonho desde criança, tornar-se uma escritora. Ao longo da vida, porém, alimentou outros desejos, como o de ser aeromoça ou autora de peças teatrais. Outro desejo intenso era ser estilista, mas seu fracasso como desenhista a impediu de seguir adiante no universo fashion. Antes de embarcar na trajetória literária, Sophia publicou alguns de seus escritos em veículos como The Times e Guardian; ela também criou quatro contos protagonizados por detetives. Hoje ela reside em Londres, ao lado do marido, de quatro filhos, várias árvores, patos e cisnes.